{"id":366,"date":"2009-10-19T20:56:24","date_gmt":"2009-10-19T23:56:24","guid":{"rendered":"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/?page_id=366"},"modified":"2024-03-16T14:20:31","modified_gmt":"2024-03-16T14:20:31","slug":"etapa-1-relatorio-1","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/?page_id=366","title":{"rendered":"Etapa 1 \u2013 Relat\u00f3rio 1"},"content":{"rendered":"<h3 class=\"tit-rel\">Ol\u00e1 amigos, H\u00e1 dois dias sai de Cordisburgo, MG, em dire\u00e7\u00e3o oeste, para chegar na Cordilheira dos Andes e percorrer as Rotas Incas, completando a primeira etapa da Volta ao Mundo de Bicicleta.<\/h3>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"images-rel\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_1\/rel_01\/Cordisburgo_Pontinha22.jpg\" alt=\"\" hspace=\"10\" width=\"200\" height=\"179\" align=\"right\" \/><\/p>\n<p>Antes de come\u00e7ar a viagem passei um ano trabalhando muito no projeto Pedalando e Educando e consegui parcerias muito boas para fazermos juntos desta viagem um material did\u00e1tico sobre a Hist\u00f3ria, Geografia e o dia a dia dos locais visitados. Espero que voc\u00eas gostem e aprendam um pouco viajando comigo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"images-rel\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_1\/rel_01\/Cordisburgo2.jpg\" alt=\"\" hspace=\"10\" width=\"200\" height=\"149\" align=\"left\" \/><\/p>\n<p>O amigo velejador Amyr Klink tem uma frase que adoro: &#8220;O pior naufr\u00e1gio \u00e9 n\u00e3o partir&#8221;. Felizmente esta dif\u00edcil etapa j\u00e1 ocorreu.<\/p>\n<p>Escolhi Cordisburgo por ser a terra de meus ancestrais, terra do importante escritor Guimar\u00e3es Rosa, da Gruta de Maquin\u00e9 e tamb\u00e9m terra da ab\u00f3bora. E ningu\u00e9m melhor para descrever esta pacata cidade do sert\u00e3o mineiro que o pr\u00f3prio Guimar\u00e3es:<\/p>\n<blockquote><p>\nCreio que minha vida n\u00e3o \u00e9 muito rica em acontecimentos. [Tenho] uma vida completamente normal.<\/p>\n<p>Nasci em Cordisburgo, uma cidadezinha n\u00e3o muito interessante, mas para mim sim, de muita import\u00e2ncia. O meu burgo \u00e9 bem Minas, Brasil de dentro, no rochedo do osso, na aguinha de coco! Cordisburgo era pequenina terra sertaneja, tr\u00e1s montanhas no meio de Minas Gerais. S\u00f3 quase lugar, mas t\u00e3o de repente bonito: l\u00e1 se desencerra a Gruta de Maquin\u00e9, milmaravilha, a das Fadas.<\/p>\n<p>O lugar se chamou Vista Alegre, antes que o padre Jo\u00e3o de Santo Ant\u00f4nio l\u00e1 fosse levantar ao Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus um templo, naquele mist\u00e9rio geogr\u00e1fico e fez-se o arraial, a que o fundador chamou de &#8220;Burgo do Cora\u00e7\u00e3o&#8221;. S\u00f3 quase cora\u00e7\u00e3o. Nunca vi, como ali, chuvadas mais fortes, nem mais belas. E quem l\u00e1 nasceu tem de guardar, por toda vida, uma concep\u00e7\u00e3o m\u00e1gica do Universo. Al\u00e9m disso, em Minas Gerais, sou mineiro. E isto sim \u00e9 o importante, pois quando escrevo, sempre me sinto tranportado para esse mundo, Cordisburgo. E este pequeno mundo sert\u00e3o, este mundo original e cheio de contrastes, \u00e9 para mim o s\u00edmbolo, diria mesmo o modelo de meu Universo. Assim, o Cordisburgo germ\u00e2nico, fundado por alem\u00e3es, \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o do meu imp\u00e9rio suevo-latino.<\/p>\n<p>N\u00e3o gosto de falar da inf\u00e2ncia. \u00c9 um tempo de coisas boas, mas sempre com pessoas grandes incomodando a gente, intervindo, comentando, perguntando, mandando, comandando, estragando os prazeres. Recordando o tempo de crian\u00e7a, vejo por l\u00e1 um excesso de adultos, todos eles, mesmo os mais queridos, ao modo de soldados e policiais do invasor, em p\u00e1tria ocupada. Acho que na vida de crian\u00e7a existe um excesso de adultos invadindo. Fui rancoroso e revolucion\u00e1rio permanente, ent\u00e3o. J\u00e1 era m\u00edope e, nem mesmo eu, ningu\u00e9m sabia disso. Gostava de isolamento, de estudar sozinho e de brincar de Geografia: de prender formiguinhas, em ilhas que eram pedras postas num tanque raso e, unidas por pauzinhos, pontes para formiguinha passar, de armar al\u00e7ap\u00f5es para apanhar sanha\u00e7os e depois tornar a solt\u00e1-los: uma maravilha. Puxar sabugos de espigas de milho, feito boizinhos de carro. Pena era n\u00e3o dispor de tinta para desensabugar um boi verde. Aproveitava um fiozinho d\u2019\u00e1gua, que vinha do po\u00e7o das lavadeiras, junto \u00e0 cisterna, e mudava-lhe duas vezes por dia o curso, fazendo de Dan\u00fabio ou de S\u00e3o Francisco, com todas as curvas dos ditos, com as cidades marginais marcadas por maitacas de Nh\u00f4 Augusto Matraga, no quintal. Um dia ainda hei \u2013 de escrever um pequeno tratado de brinquedos para meninos quietos. Havendo imagina\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma boa escola.<\/p>\n<p>Papai era comerciante, homem muito rigoroso. Quando eu era menino me levava pr\u00e1 ca\u00e7ar com ele. Eu avistava a ca\u00e7a e gritava por papai. Ele vinha correndo e a ca\u00e7a fugia. Um dia papai desconfiou que eu gritava de prop\u00f3sito para que ele n\u00e3o pudesse matar os bichos e nunca mais me levou.<\/p>\n<p>Quando era garoto pensava que era rico. L\u00e1 em Cordisburgo eu era. Mas quando precisei ser rico&#8230; cad\u00ea?<\/p>\n<p>Tempo bom, de verdade, s\u00f3 come\u00e7ou com a conquista de algum isolamento, com a seguran\u00e7a de poder fechar-me num quarto e trancar a porta. Deitar no ch\u00e3o e imaginar hist\u00f3rias, poemas, romances, botando todo mundo conhecido como personagem.<\/p>\n<p><cite>Organizada por Neuma Cavalcanti \u2013 do IEB (USP)<br \/>\nGentilmente cedida por Calina Guimar\u00e3es (Museu de Guimar\u00e3es Rosa)<\/cite>\n<\/p><\/blockquote>\n<div class=\"nota alignright\">\n<strong>Para saber mais sobre Guimar\u00e3es Rosa<\/strong><br \/>\nwww.tvcultura.com.br\/resguia\/literatu\/guirosa.htm<br \/>\nwww.cce.ufsc.br\/~neitzel\/literatura<br \/>\nwww.medicina.ufmg.br\/cememor\/rosa.htm<br \/>\nwww.guimaraesrosa.pucminas.br\n<\/div>\n<p>Sai de Cordisburgo aben\u00e7oado pelas chuvas de ver\u00e3o. Escolhi passar somente por pequenas estradas, preferencialmente de terra, e cheguei em Pontinha. As estradas de terra em alguns momentos pareciam rios. A roda da bicicleta ficava um palmo debaixo d&#8217;\u00e1gua. O dia inteiro foi uma varia\u00e7\u00e3o de chuva e sol.<\/p>\n<p>Pontinha \u00e9 uma vila formada pelos herdeiros do lend\u00e1rio escravo Chico Rei e ainda mant\u00e9m a tradi\u00e7\u00e3o da \u00c1frica. Nada mal para quem est\u00e1 viajando a procura de hist\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"images-rel\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_1\/rel_01\/Pontinha_Seu_Carlos_filha_e_neta2.jpg\" alt=\"\" hspace=\"10\" width=\"170\" height=\"265\" align=\"right\" \/><\/p>\n<p>Antonio Joaquim Barbosa Mascarenhas escreveu em 1975 um pequeno texto sobre Pontinha. Atrav\u00e9s de seu Carlos e dona Eurisa, l\u00edderes da comunidade, tive acesso ao texto e muitas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>A pesquisadora Agripa de Vasconcelos conta sobre a captura desta fam\u00edlia no Congo:<\/p>\n<p>Enquanto gozavam da alegria de uma festa em comemora\u00e7\u00e3o \u00e0 vit\u00f3ria de uma batalha, o reinado de Galanga, foi cercado por ca\u00e7adores de escravos portugueses, que captaram quatrocentas pessoas, entre homens, mulheres, crian\u00e7as e soldados, inclusive o rei Galanga e seu filho Muzinga.<\/p>\n<p>Foram transportados at\u00e9 o Brasil pelo navio negreiro Madalena. Segundo o Vaticano os portugueses n\u00e3o poderiam transportar pag\u00e3os em seus navios. Assim apressadamente chamaram o padre Andr\u00e9 Paiva, que batizou todos os homens com o nome Franciso e as mulheres Maria.Durante a viagem, por problemas com a navega\u00e7\u00e3o, foram lan\u00e7ados ao mar cerca de duzentos e cinquenta deles.<\/p>\n<p>Cinquenta destes escravos foram conduzidos para Ouro Preto pelo Major Augusto de Andrade G\u00f3is e seu filho Eleut\u00e9rio. Logo o major percebeu a lideran\u00e7a que Galanga exercia sobre seu povo e o batizou de Chico Rei.<\/p>\n<p>Estes escravos se mantiveram unidos e, ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, aproximadamente quinze deles seguiram de Ouro Preto a Diamantina, atra\u00eddos pelos diamantes, e esbarraram nas cercanias de Pomp\u00e9u aproximadamente em 1780. Por serem cat\u00f3licos, seu chefe procurou se aconselhar com o vig\u00e1rio da Igreja, o Padre Moreira, que os orientou para comprarem seiscentos alqueires na regi\u00e3o. A terra seria de inalienabilidade familiar, ou seja, todos da fam\u00edlia poderiam usar as terras mas nunca poderiam vend\u00ea-las.<\/p>\n<p>Hoje a vila \u00e9 formada por mais ou menos 900 pessoas &#8211; todos descendentes de escravos vindos do Congo. O pequeno povoado se orgulha por suas mulheres nunca terem se misturado com nenhum homem que n\u00e3o seja da comunidade, o que d\u00e1 \u00e0 vila a peculiaridade racial. Os documentos das terras se perderam e hoje s\u00e3o donos das mesmas atrav\u00e9s da Lei do Usocapi\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"images-rel\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_1\/rel_01\/Pontinha_Casa_tipica2.jpg\" alt=\"\" hspace=\"10\" width=\"200\" height=\"150\" align=\"left\" \/><\/p>\n<p>Infelizmente poucos dali cultivam a mem\u00f3ria dos ancestrais. Vivem com certas dificuldades e em habita\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, com poucos empregos dispon\u00edveis, ora extraindo o minhocu\u00e7u para vender aos pescadores, ora trabalhando nas planta\u00e7\u00f5es de eucalipto, nas catas de cristais, nas pedreiras de ard\u00f3sia, nas fazendas ou por conta pr\u00f3pria, com cria\u00e7\u00f5es e planta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O local \u00e9 famoso pelo Congado, de onde s\u00e3o herdeiros diretos. Segundo seu Carlos as festividades n\u00e3o t\u00eam dia certo mas s\u00e3o mais frequentes entre julho e outubro.<\/p>\n<p>De Pontinha vim para Papagaio (maior produtor de pedra ard\u00f3sia do Brasil e segunda do mundo depois da Fran\u00e7a). A viagem foi toda em estrada de terra com muito sol. Pela manh\u00e3 passei pela Lagoa Dourada e depois por uma grande planta\u00e7\u00e3o de Eucalipto onde todas as estradas s\u00e3o iguais e tive de utilizar v\u00e1rias vezes a b\u00fassola para me orientar. L\u00e1 batizei a bicicleta e minha perna com um belo tombo. Foi quando percebi que havia esquecido meu kit de primeiros socorros. Providenciei um curativo e, para minha surpresa, depois de pequenos dois quil\u00f4metros avistei uma fazenda com a placa &#8220;Fazenda Dr. Jo\u00e3o&#8221;. Dr. Jo\u00e3o, m\u00e9dico de Belo Horizonte, tinha chegado h\u00e1 alguns minutos e foi quem me arrumou um curativo, \u00e1gua gelada e algumas mangas. Caiu do c\u00e9u!<\/p>\n<p>Daqui sigo para a nascente do Rio S\u00e3o Francisco, na Serra da Canastra.<\/p>\n<p>Um abra\u00e7o e at\u00e9 a pr\u00f3xima!<br \/>\n<strong>Argus<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ol\u00e1 amigos, H\u00e1 dois dias sai de Cordisburgo, MG, em dire\u00e7\u00e3o oeste, para chegar na Cordilheira dos Andes e percorrer as Rotas Incas, completando a primeira etapa da Volta ao Mundo de Bicicleta. 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