{"id":414,"date":"2009-10-20T18:57:07","date_gmt":"2009-10-20T21:57:07","guid":{"rendered":"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/?page_id=414"},"modified":"2024-03-16T14:20:31","modified_gmt":"2024-03-16T14:20:31","slug":"etapa-1-relatorio-6","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/?page_id=414","title":{"rendered":"Etapa 1 \u2013 Relat\u00f3rio 6"},"content":{"rendered":"<h4>06.MAR.2002<\/h4>\n<h3 class=\"tit-rel\">Entrei na Bol\u00edvia. Passei por Quijarro, Santa Cruz de la Sierra, El Torno, Samaipata, Mairana e Mataral. Visitei as ru\u00ednas de um importante forte Inca e agora estou subindo a Cordilheira dos Andes em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Cochabamba.<\/h3>\n<p>Estas \u00faltimas semanas foram muito boas para o projeto. Conclu\u00ed a primeira etapa brasileira e recebi a carta do Governo Federal , atrav\u00e9s do Ministro do Esporte e Turismo Sr. Carlos Melles, elogiando o projeto e pedindo o apoio dos pa\u00edses por onde passarei. Muito obrigado! A carta j\u00e1 est\u00e1 em minhas m\u00e3os e seguramente ir\u00e1 me ajudar muito no percurso. Tamb\u00e9m agrade\u00e7o ao Consulado do Brasil na Bol\u00edvia que igualmente fez uma carta de recomenda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_1\/rel_06\/6_1.jpg\" alt=\"\" hspace=\"0\" width=\"155\" height=\"200\" align=\"baseline\" \/><\/p>\n<p>Aproveito a leva de agradecimentos para agradecer voc\u00ea que est\u00e1 lendo e participando do projeto. Fico muito feliz quando vejo que v\u00e1rias pessoas est\u00e3o cadastrando e enviando mensagens. A todos Muchas Gracias!<\/p>\n<p>De Corumb\u00e1 fui para Puerto Quijarro, na compania do Marcelo, \u00cdsis e Fabio, amigos da casa dos estudantes. Quijarro \u00e9 um povoado muito pobre que vive praticamente conectado com Corumb\u00e1 (20 km de dist\u00e2ncia), \u00e9 uma zona franca de livre com\u00e9rcio e est\u00e1 ligado com as outras partes da Bol\u00edvia somente atrav\u00e9s do famoso trem da morte. Com o gasoduto Brasil-Bol\u00edvia, que est\u00e1 sendo constru\u00eddo, existem planos de asfaltar o trecho Corumb\u00e1 \u2013 Santa Cruz que hoje praticamente n\u00e3o existe. Percorri o trecho de p\u00e2ntano boliviano no famoso trem e passei por v\u00e1rios povoados muito pobres que vivem praticamente da venda de alimentos para os passageiros. V\u00e1rias vezes presenciei a cena triste de pessoas vendendo animais selvagens para os passageiros &#8211; ali chegam a vender um papagaio por um d\u00f3lar.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright\" style=\"border: 0pt none;\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_1\/rel_06\/6_2.jpg\" border=\"0\" alt=\"\" hspace=\"0\" width=\"200\" height=\"150\" align=\"baseline\" \/><\/p>\n<p>Conheci muitos estudantes de medicina brasileiros que fazem seus cursos em Santa Cruz e Cochabamba, uma alternativa para evitar as car\u00edssimas faculdades particulares de medicina brasileiras. Em algumas faculdades particulares da Bol\u00edvia mais de 80% dos estudantes s\u00e3o brasileiros.<\/p>\n<p>Na regi\u00e3o existiram v\u00e1rias tribos ind\u00edgenas e os primeiros habitantes foram os guaranis, aimar\u00e1s e qu\u00edchuas (S\u00e9c. XV a.C. ). O Imp\u00e9rio Inca (S\u00e9c XIV d.C. ) dominou praticamente toda a Cordilheira at\u00e9 chegarem os espanh\u00f3is (S\u00e9c. XVI d.C.) destruindo toda civiliza\u00e7\u00e3o existente. Em 1825 o venezuelano Sim\u00f3n Bol\u00edvar conquista a independ\u00eancia da Bol\u00edvia que tem o nome em sua homenagem.<\/p>\n<p>Hoje a Bol\u00edvia \u00e9 um dos pa\u00edses mais pobres da Am\u00e9rica do Sul com um alto \u00edndice de analfabetismo (14,4% &#8211; 2000). Ernesto Ch\u00e9 Guevara (1928-1967) \u00e9 a figura que teve mais influ\u00eancia na hist\u00f3ria boliviana do S\u00e9c. XX, apesar de ser argentino (Ros\u00e1rio). Ch\u00e9 simboliza um idealista coerente com seus ideais que mobilizaram a juventude boliviana. Conheceu Fidel Castro no M\u00e9xico e o acompanhou na triunfante luta revolucion\u00e1ria cubana de 1959. Guerrilhou na Bol\u00edvia na d\u00e9cada de 60 seguindo os ideias de liberta\u00e7\u00e3o do imperialismo norte americano a acabou assassinado em 1967.<\/p>\n<p>Em Santa Cruz de la Sierra, uma das maiores cidades da Bol\u00edvia (um milh\u00e3o de habitantes) fiquei na casa dos estudantes brasileiros que conheci no trem. Santa Cruz \u00e9 famosa por causa das &#8220;magn\u00edficas&#8221;, garotas que fazem concurso de beleza e envolvem todo pa\u00eds. As &#8220;magn\u00edficas&#8221; s\u00e3o t\u00e3o importantes para os bolivianos que o pa\u00eds, com milh\u00f5es de problemas de infra estrutura b\u00e1sica e conflitos pol\u00edticos, chega a passar todo um dia televisionando desfiles e concursos de misses. Praticamente todo tipo de publicidade do pa\u00eds se resume em tirar uma foto com o produto e uma &#8220;magn\u00edfica&#8221; do lado.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_1\/rel_06\/6_3.jpg\" border=\"0\" alt=\"\" hspace=\"0\" width=\"150\" height=\"200\" align=\"baseline\" \/><\/p>\n<p>De Santa Cruz fui para El Torno, numa estrada praticamente plana a uma altura de 350 metros acima do n\u00edvel do mar. A estrada parece mais uma avenida que passa dentro de v\u00e1rios pequenos povoados. El Torno \u00e9 o povoado que possui um mercado no meio da estrada. Ali jantei num interessante bar que serve a tradicional galinha frita com batatas. A divers\u00e3o do bar \u00e9 assistir \u00e0s fitas de filmes bolivianos da cole\u00e7\u00e3o do propriet\u00e1rio japon\u00eas. Os filmes s\u00e3o passados numa televis\u00e3o que fica na cal\u00e7ada de terra onde dezenas de pessoas ficam em p\u00e9 assistindo.<\/p>\n<p>O limite da Cordileira com o Chaco \u00e9 muito contrastante, de repente come\u00e7am as montanhas e a paisagem plana n\u00e3o volta mais. Toda a subida \u00e9 acompanhada por paisagens formadas pelas grandes eleva\u00e7\u00f5es e rios que correm por vales muito profundos. A viagem teve uma emo\u00e7\u00e3o extra com seus grandes precip\u00edcios. Quase todas estradas e ruas da Bol\u00edvia s\u00e3o de terra e as poucas asfaltadas possuem muitos problemas. Grande parte dos autom\u00f3veis daqui s\u00e3o 4&#215;4 e at\u00e9 mesmo a bicicleta teve de substituir o pneu de asfalto pelo de estrada de terra. Em v\u00e1rios trechos a estrada est\u00e1 parcialmente interrompida por grandes pedras que ca\u00edram e ainda n\u00e3o foram removidas.<\/p>\n<p>Um &#8220;perrengue&#8221; me batizou logo no primeiro dia nos Andes. Ap\u00f3s subir mais de mil metros encontrei um grande vale a poucos quil\u00f4metros das ru\u00ednas Incas de Samaipata. Estava cansado e meu joelho j\u00e1 me pedia para parar. Resolvi entrar no vale seguindo as placas do Resort Ashira Camping que me parecia um excelente lugar para descansar. L\u00e1 descobri que o imenso Resort estava completamente vazio, fiquei esperando algu\u00e9m aparecer por mais de uma hora at\u00e9 perceber que eu estava completamente sozinho. Escureceu e eu j\u00e1 n\u00e3o tinha outra op\u00e7\u00e3o sen\u00e3o invadir o Resort e estender a barraca em algum canto. Entrei em um banheiro, tomei banho, fiz um macarr\u00e3o para &#8220;emerg\u00eancias&#8221; que carregava desde o in\u00edcio da viagem e segui esperando. Cheguei a ficar gritando no meio do vale para ver se algu\u00e9m aparecia e nada. Armei a barraca e coloquei algumas reportagens que carrego comigo na portaria com um texto tentando explicar a invas\u00e3o. Logicamente fiquei todo tempo acordado e somente no meio da noite o dono chegou e pude dormir tranquilo.No outro dia o Sr. Gonzalo, dono do resort, me preparou um caf\u00e9 da manh\u00e3 refor\u00e7ado e fez quest\u00e3o de n\u00e3o me cobrar nada. Valeu Gonzalo!<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_1\/rel_06\/6_4.jpg\" border=\"0\" alt=\"\" hspace=\"0\" width=\"400\" height=\"264\" align=\"baseline\" \/><\/p>\n<p>No in\u00edcio da subida da cordilheira, a 1600 metros acima do n\u00edvel do mar, est\u00e1 o povoado de Samaipata que em qu\u00edchua significa descanso nas alturas. Samaipata possui uma das ru\u00ednas Incas mais orientais. Ela est\u00e1 estrategicamente situada perto da nascente do Rio Pira\u00ed (um dol milhares de afluentes do Rio Amazonas) a oeste do Pantano, a sul da Floresta Amaz\u00f4nica e a leste da Cordilheira Andina. V\u00e1rios pesquisadores pensaram que o monumento foi feito exclusivamente pelos Incas mas no local tamb\u00e9m se encontram resqu\u00edcios da cultura pr\u00e9-incaica de Tiwanakuy e tribos silv\u00edcolas conhecias como Chiriguanos e Chan\u00e9s.<\/p>\n<p>A parte mais impressionante das ru\u00ednas \u00e9 o Centro Cerimonial del Fuerte, um arenito esculpido com 200m de comprimento e 60m de largura. Recentemente foi declarada pela Unesco como Patrim\u00f4nio Cultural da Humanidade. A maior rocha esculpida do mundo tem diferentes desenhos, dentre eles um puma, um jaguar e uma serpente que representam for\u00e7a, poder e vida respectivamente.<\/p>\n<p>Os Incas faziam ali o culto ao sol e \u00e0 deusa da fecundidade para bons cultivos. A agricultura era a base da vida qu\u00edchua (Inca). O local tamb\u00e9m era usado como centro comercial dos Incas, Guaranis e Chan\u00e9s. As tribos fizeram difrentes interven\u00e7\u00f5es na estrat\u00e9gica regi\u00e3o do forte, os Guaranis, antrop\u00f3fagos, usavam o c\u00edrculo central da \u00e1rea cerimonial para sacrif\u00edcios humanos enquanto os Incas usavam para comemora\u00e7\u00f5es e reuni\u00f5es de l\u00edderes. Estes viviam em uma esp\u00e9cie de sistema mon\u00e1rquico socialista onde todos trabalhavam e repartiam seus ganhos respeitando sempre seus tr\u00eas preceitos b\u00e1sicos: ama llulla (n\u00e3o mentir), ama sua (n\u00e3o roubar), ama q&#8217;uella (n\u00e3o ser pregui\u00e7oso). Fui para as ru\u00ednas acompanhado pelo descendente Inca e estudante de turismo Ramirez que fez uma grava\u00e7\u00e3o em l\u00edngua qu\u00edchua para o projeto.(link para o mp3 no site)<\/p>\n<p>&#8220;&#8230; os Incas contaram aos espanh\u00f3is que seus antepassados sa\u00edram de uma cova de pedra de onde foram para Cuzco*. Eram quatro casais de irm\u00e3os e irm\u00e3s onde sobreviveu apenas o casal Manco Capac e Mama Ocllo, fundadores da dinastia Inca. Por isso existem no forte quatro pequenos buracos simbolizando o mito de origem dos Incas.&#8221; Dr. Albert Meyers, arque\u00f3logo. Sabe-se no entanto que isso \u00e9 uma lenda e, na verdade, uma das bases mais importantes dos Incas foi em Cuzco (Machu Picchu) e o forte de Samaipata \u00e9 uma extens\u00e3o desse Imp\u00e9rio e foi ocupado posteriormente. (* mesmo caminho que fa\u00e7o agora)<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_1\/rel_06\/6_5.jpg\" border=\"0\" alt=\"\" hspace=\"0\" width=\"140\" height=\"200\" align=\"baseline\" \/><\/p>\n<p>Hoje Samaipata \u00e9 um simp\u00e1tico povoado com muito turismo e uma interessante comunidade alem\u00e3 que encontrou a\u00ed uma semelhan\u00e7a com seu clima. Um ciclista alem\u00e3o passou por Samaipata h\u00e1 alguns anos e fundou uma parceria com a Alemanha destinando verbas para a escola do povoado. O povoado possui um Centro de Pesquisas Arqueol\u00f3gicas e Antropol\u00f3gicas &#8211; CIAAS, que estuda as ru\u00ednas Incas e desenhos rupestres encontrados na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Aqui encontrei v\u00e1rias coincid\u00eancias. A pra\u00e7a central foi recentemente constru\u00edda e projetada por tr\u00eas arquitetos que, assim como eu, se formaram na Universidade Federal de Minas Gerais. Al\u00e9m disso descobri que o irm\u00e3o do prefeito \u00e9 atleticano e vive em Belo Horizonte.<\/p>\n<p>Para saber mais:<br \/>\nApoyo para el Campesino Ind\u00edgena del Oriente Boliviano<br \/>\nwww.apcob.org.bo<br \/>\nUnidad de Turismo e Cultura da Rep\u00fablica de Bol\u00edvia<br \/>\nwww.go.to\/jucumari.bo<\/p>\n<p>Um grande abra\u00e7o,<br \/>\n<strong>Argus<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>06.MAR.2002 Entrei na Bol\u00edvia. Passei por Quijarro, Santa Cruz de la Sierra, El Torno, Samaipata, Mairana e Mataral. Visitei as ru\u00ednas de um importante forte Inca e agora estou subindo a Cordilheira dos Andes em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Cochabamba. Estas \u00faltimas semanas foram muito boas para o projeto. 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