{"id":417,"date":"2009-10-20T19:02:11","date_gmt":"2009-10-20T22:02:11","guid":{"rendered":"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/?page_id=417"},"modified":"2024-03-16T14:20:31","modified_gmt":"2024-03-16T14:20:31","slug":"etapa-1-relatorio-7","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/?page_id=417","title":{"rendered":"Etapa 1 \u2013 Relat\u00f3rio 7"},"content":{"rendered":"<h4>17.MAR.2002<\/h4>\n<h3 class=\"tit-rel\">Ola amigos, acabo de passar por uma das regi\u00f5es mais pobres do mundo. Conheci de perto a realidade dos descendentes incas que vivem nos Andes Orientais e fiquei impressionado com sua mis\u00e9ria. Depois de Samaipata segui em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Cochabamba passando pela estrada antiga. Foram fortes subidas onde cheguei a mais de quatro mil metros de altitude. Passei por v\u00e1rios pequenos povoados e de Cochabamba fui para Oruro pela estrada principal da Bol\u00edvia.<\/h3>\n<p>De Samaipata fui para Mairana depois Mataral onde fui visitar os desenhos rupestres que ficam em uma caverna a 5 km do povoado e foram feitos h\u00e1 aproximadamente 4.000 a.C.. O local n\u00e3o possui nenhuma estrutura para visita\u00e7\u00e3o e a \u00fanica pessoa que sabia como chegar at\u00e9 a caverna era o prefeito da cidade, Sr. Fidel Rojas, que gentilmente me acompanhou junto com o professor de hist\u00f3ria Sr. L\u00facio Bonif\u00e1cio.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignright image-rel\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_1\/rel_07\/7_1.jpg\" ><\/p>\n<p>H\u00e1 dez anos atr\u00e1s o com\u00e9rcio era intenso na regi\u00e3o onde passei. Com a implanta\u00e7\u00e3o da rodovia asfaltada as lojas, restaurantes e hot\u00e9is da estrada antiga fecharam e tive muitas dificuldades para conseguir comida e local para dormir. Fiquei em prefeituras, dep\u00f3sitos, barraca, casa de conhecidos, etc. A estrada antiga tem muitas subidas e descidas e foi feita sem grandes tecnologias sempre com um morro de um lado e um precip\u00edcio do outro, sem nenhum t\u00fanel ou viaduto. V\u00e1rias vezes passei dos 3000 m.a.n.m. (metros acima do n\u00edvel do mar) e voltava a descer. A dificuldade dos fortes declives vieram junto com as belas paisagens e a adrenalina de algumas descidas. O terreno \u00e9 arenoso e em muitos trechos da estrada ele est\u00e1 sofrendo eros\u00e3o que chega a deslocar blocos imensos das montanhas. \u00c9 comum ver pedras caindo e v\u00e1rias vezes encontrei algumas com mais de um metro de altura que rolaram at\u00e9 o meio da estrada. Guimar\u00e3es Rosa escreveu que &#8220;Minas \u00e9 um mar de montanhas&#8221;, como bom mineiro posso dizer que aqui estou no meio de um maremoto.<\/p>\n<p>O local \u00e9 povoado por qu\u00edchuas (descendentes diretos dos Incas) que representam 30% da popula\u00e7\u00e3o boliviana, poucos falam castelhano e vivem em completa mis\u00e9ria. De Mataral fui para Comarapa onde passei toda tarde enviando emails para o projeto e depois subi 2000 metros para um povoado sugestivamente chamado Sib\u00e9ria a 3500 m.a.n.m., a pedalada durou todo o dia e foi feita com muita neblina, vento, poeira e frio. Cheguei com muita fome e quase gelado &#8211; sonhando com um banho quente. O povoado \u00e9 muito pequeno com casas muitos simples e vi que n\u00e3o encontraria ali nenhuma pens\u00e3o ou alojamento. Tive de esquecer do banho e me preocupar em buscar algum lugar para dormir sem morrer de frio. Consegui um canto onde guardavam garrafas para estender meu saco de dormir e ali fiquei protegido da chuva e do vento. Logo fui providenciar algo para comer e consegui um jantar com uma senhora que esporadicamente serve comida &#8211; \u00fanica op\u00e7\u00e3o do povoado. O prato veio com um pouco de arroz e um ovo (comeria dez pratos desse) e ap\u00f3s terminar perguntei se poderia me servir outro ovo e a senhora respondeu que era o \u00fanico ovo que tinha. Fiquei um pouco constrangido com minha pergunta e fui dormir. Ali percebi que realmente todos passam fome de verdade e talvez o ovo que comi j\u00e1 era uma refei\u00e7\u00e3o de luxo para eles, agradeci o prato que tive e fui dormir sabendo que minha fome passaria no outro dia mas a deles n\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignright image-rel\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_1\/rel_07\/7_2.jpg\" ><\/p>\n<p>\u00c9 impressionante como uma civiliza\u00e7\u00e3o que j\u00e1 foi o maior imp\u00e9rio da Am\u00e9rica do Sul vive hoje em condi\u00e7\u00f5es t\u00e3o subumanas. S\u00e3o pessoas que perderam totalmente sua auto-estima e vivem como animais. Muitos passam anos sem tomar banho e vivem de subsist\u00eancia fazendo sua pr\u00f3pria roupa e comida. Por v\u00e1rias vezes encontrei crian\u00e7as andando nas estradas que me viam e corriam com medo para o meio do mato. Com outras atitudes mas de forma semelhante tamb\u00e9m s\u00e3o os adultos que sempre est\u00e3o receosos ou com vergonha de algo \u2013 quase n\u00e3o se comunicam. Na Fiesta de Tinku eles se reunem e come\u00e7am a brigar, quanto mais sangue melhor ser\u00e1 a colheita. Quando eu estava quase chegando em Pongo vi do alto os camponeses reunidos no vale e tirei um foto e s\u00f3 depois fui saber que se tratava desse ritual. Quase todos vivem em casas de barro e palha com piso de terra socada, n\u00e3o possuem banheiro ou \u00e1gua encanada e a cozinha se limita a alguns baldes com \u00e1gua e um canto com lenhas onde as panelas ficam em cima. Dormem em camas feitas de palha e cobertores com l\u00e3 de lhamas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignright image-rel\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_1\/rel_07\/7_3.jpg\" ><\/p>\n<p>Grande parte da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 formada por esses camponeses que n\u00e3o fazem parte da popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa da Bol\u00edvia o que afasta os investidores estrangeiros e deixa o pa\u00eds ainda menos desenvolvido.<\/p>\n<p>Bol\u00edvia tem um hist\u00f3ria tragic\u00f4mica sobre seu acesso ao mar. Em 1879, na Guerra do Pac\u00edfico, Chile invadiu suas terras na parte onde tinha contato com o Oceano, no importante deserto e porto de Antofagasta, rico em salitre. A invas\u00e3o foi feita no Domingo, 23 de fevereiro, e o ent\u00e3o General Daza, para n\u00e3o perturbar o Carnaval somente noticiou a invas\u00e3o nacionalmente quando j\u00e1 n\u00e3o havia como recuperar as terras ocupadas. Hoje Bol\u00edvia e Paraguai s\u00e3o os \u00fanicos dois pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina que n\u00e3o possuem costa mar\u00edtima.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignright image-rel\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_1\/rel_07\/7_4.jpg\" ><\/p>\n<p>Depois da faminta parada em Sib\u00e9ria desci uns 30 km e parei no Valle Hermoso, primeiro povoado que encontrei. Ali tamb\u00e9m n\u00e3o tem hotel mas tem um simp\u00e1tico casal, Geraldo e Maria, que me recebeu com muita aten\u00e7\u00e3o. Aproveitei a tarde para comer, limpar o barro da bicicleta e jogar um pouco de volei com os amigos do Geraldo. O jogo foi muito engra\u00e7ado pois eram todos adultos mas jogavam como crian\u00e7as, invadiam o campo do outro, davam murros na bola, tocavam muito mais que tr\u00eas vezes e n\u00e3o tinha pontua\u00e7\u00e3o \u2013 o importante era fazer esporte e se divertir.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignright image-rel\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_1\/rel_07\/7_5.jpg\" ><\/p>\n<p>No outro dia fui para Copachuncho e fiquei na casa do sogro do Geraldo. Ali comecei a sentir falta de uma alimenta\u00e7\u00e3o balanceada e inaugurei meu complexo vitam\u00ednico que carrego para emerg\u00eancias. Nestes \u00faltimos dias comi praticamente galinha com batata frita. Segui por Tiraque e Epizana at\u00e9 chegar finalmente em Cochabamba num trecho que tomei muita chuva e vento frio.<\/p>\n<p>Cochabamba (616 mil hab.) \u00e9 a terceira maior cidade da Bol\u00edvia depois de La Paz e Santa Cruz. Apesar de ser menor que Santa Cruz possui uma infra-estrutura melhor. Praticamente todas suas ruas s\u00e3o asfaltadas e sua popula\u00e7\u00e3o mais pobre vive em casas de tijolo com energia, \u00e1gua e esgoto.<\/p>\n<p>Quando eu estava em Comarapa um carro parou na estrada me oferecendo refrigerante e o motorista me deixou o nome e seu telefone de Cochabamba. Logo que cheguei liguei e coincidentemente era a festa de 15 anos de sua filha. O cicerone, Hugo Fernando, logo se tornou um grande amigo e passei com sua fam\u00edlia tr\u00eas dias com muitas comidas t\u00edpicas e visitas aos pontos tur\u00edsticos da cidade, inclusive um Cristo que \u00e9 maior que o Cristo do Rio de Janeiro. Fernando fez quest\u00e3o que eu comesse Mama Kongachi que na l\u00edngua e tradi\u00e7\u00e3o qu\u00edchua significa &#8220;o prato que far\u00e1 voc\u00ea esquecer da comida da mam\u00e3e&#8221;. Fernando \u00e9 dono de uma grande ind\u00fastria de garrafas pl\u00e1sticas e me chamou a aten\u00e7\u00e3o pela frase que escreveu como lema para seus funcion\u00e1rios: &#8220;Enquanto eu estiver vivo e voc\u00eas estiverem trabalhando nunca nos faltar\u00e1 nada&#8221;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignright image-rel\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_1\/rel_07\/7_6.jpg\" ><\/p>\n<p>Depois dos dias de fartura e descanso que tive segui para Oruro, agora pela rodovia asfaltada. A subida \u00e9 forte e mesmo depois de 70 km pedalados ainda era poss\u00edvel avistar Cochabamba l\u00e1 embaixo. Parei no povoado de Pongo onde existe uma par\u00f3quia que funciona como centro educacional para a popula\u00e7\u00e3o qu\u00edchua da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Na par\u00f3quia pude conhecer e entender um pouco mais sobre os qu\u00edchuas. Pela primeira vez encontrei descendentes incas que tinham conhecimento de sua hist\u00f3ria, no\u00e7\u00f5es de matem\u00e1tica e conhecimentos gerais. Vi ali um trabalho muito importante e fundamental para que essa popula\u00e7\u00e3o possa sair da mis\u00e9ria e lutar por seus direitos. Segundo o Padre Alberto, coordenador do Centro Pastoral do Pongo, o maior desafio foi fazer com que os qu\u00edchuas entendessem que s\u00e3o seres humanos. \u2013 Nos primeiros anos fic\u00e1vamos sem saber o que fazer, eles n\u00e3o sabiam comer, conversar, tomar banho, etc. Nosso interesse n\u00e3o \u00e9 fazer uma educa\u00e7\u00e3o escolar convencional e sim promover um conhecimento b\u00e1sico para que possam voltar para seus povoados e transmitir no\u00e7\u00f5es de higiene, agronomia, hist\u00f3ria e comportamento coletivo. Afirmou Padre Alberto. O Centro possui cinco anos de funcionamento e \u00e9 subsidiado pela Igreja Cat\u00f3lica, s\u00e3o revezados semanalmente grupos de 60 pessoas que voltam a cada dois meses. A princ\u00edpio os banheiros da Par\u00f3quia tiveram de ser reformado pois n\u00e3o se adaptaram com os vasos sanit\u00e1rios e os chuveiros foram uma grande novidade. Essa foi a \u00fanica organiza\u00e7\u00e3o que encontrei at\u00e9 o momento que realmente se preocupa com a vida dos q\u00faichuas. Parab\u00e9ns Padre Alberto e todos que ajudam essa institui\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>De Pongo fui para Lequepalka passando por La Cumbre 4500 m.a.n.m. um dos pontos mais altos da viagem. Todas vezes que passei dos 4000 m.a.n.m. senti falta de oxig\u00eanio (a temperatura de ebuli\u00e7\u00e3o da \u00e1gua \u00e9 abaixo de 85 graus) e muitas vezes tive de empurrar a bicicleta, a temperatura \u00e9 baixa (m\u00edn. 5 graus) e muitas chuvas v\u00eam com granizo. As crian\u00e7as tem as bochechas marrons queimadas pelo vento e frio. Desde Lequepalka comecei a pedalar no altiplano e praticamente acabaram-se os morros, ufa! Agora vou sem grandes subidas at\u00e9 o lago Titicaca.<\/p>\n<p>Sei que nesse percurso estou deixando para tr\u00e1s muitos lugares interessantes sem visitar \u2013 Potosi, Sucre, Salar de Uyuni, etc. Visit\u00e1-los seria no m\u00ednimo mais um m\u00eas de viagem o que me faria pegar as alagadas \u00e9pocas de mon\u00e7\u00f5es no sudeste asi\u00e1tico. De qualquer forma recomendo que estudem tamb\u00e9m esses locais pois possuem uma hist\u00f3ria e geografia muito interessantes.<\/p>\n<p>Neste trecho n\u00e3o encontrei nenhum site para recomendar mas consegui um importante contato para os professores e alunos que queiram saber mais sobre os Incas e a vida de seus descendentes hoje. \u00c9 o email do Padre Alberto que se disponibilizou a responder todos emails que chegarem, transmitindo as perguntas diretamente para seus alunos qu\u00edchuas. O endere\u00e7o \u00e9: cppongo@hotmail.com \u2013 Fa\u00e7am bom proveito!<\/p>\n<p>Um grande abra\u00e7o e at\u00e9 o Peru!<br \/>\n<strong>Argus<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>17.MAR.2002 Ola amigos, acabo de passar por uma das regi\u00f5es mais pobres do mundo. Conheci de perto a realidade dos descendentes incas que vivem nos Andes Orientais e fiquei impressionado com sua mis\u00e9ria. 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