{"id":431,"date":"2009-10-20T19:09:26","date_gmt":"2009-10-20T22:09:26","guid":{"rendered":"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/?page_id=431"},"modified":"2024-03-16T14:20:31","modified_gmt":"2024-03-16T14:20:31","slug":"etapa-2-relatorio-3","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/?page_id=431","title":{"rendered":"Etapa 2 \u2013 Relat\u00f3rio 3"},"content":{"rendered":"<h4>19.AGO.2002<\/h4>\n<h3 class=\"tit-rel\">Com poucos dias em Cairns consegui a esperada carona de veleiro rumo ao sudeste asi\u00e1tico, Estreito de Torres, paramos em Thursday Island e seguimos pelo Mar de Arafura at\u00e9 Darwin, de onde peguei um avi\u00e3o para cruzar o Mar do Timor e chegar em Dili, no Timor Leste.<\/h3>\n<p>Seguramente a barreira de corais foi durante muitos anos um desafio para as embarca\u00e7\u00f5es que tentavam atingir a costa pelo Oceano Pac\u00edfico. Hoje, mesmo com todo mapeamento e tecnologia de localiza\u00e7\u00e3o por sat\u00e9lite (GPS \u2013 Global Position System), esse trecho ainda exige bastante aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" align=\"left\" class=\"images-rel\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_2\/rel_03\/1.jpg\" alt=\"Barreiras de corais\"\/><\/p>\n<p>Revez\u00e1vamos de noite a &#8220;guarda&#8221; onde um sempre ficava acordado atento ao vento, navios e equipamentos de navega\u00e7\u00e3o. Numa noite em alto mar, sem a luz da lua, o c\u00e9u fica leitoso com a luz de tantas estrelas. Durante as &#8220;guardas&#8221; t\u00ednhamos tempo suficiente para perceber a Terra girando &#8211; com nosso planeta girando do oeste para o leste, o sol e as estrelas parecem se mover na dire\u00e7\u00e3o oposta. Junto com toda constela\u00e7\u00e3o tinham milhares de estrelas cadentes &#8211; meteoritos muitas vezes do tamanho de um feij\u00e3o que entram na atmosfera em grande velocidade e, com o atrito, desmaterializam e se transformam em energia. V\u00e1rias das estrelas que vemos j\u00e1 n\u00e3o existem mais, vemos apenas sua luz que ainda n\u00e3o &#8220;terminou de chegar&#8221; na Terra. Nossa companhia eram o mar e o c\u00e9u que cada dia nos dava alguma surpresa. Al\u00e9m de golfinhos, baleias e milhares de peixes voadores existem os planctons &#8211; algas que flutuam e emitem uma luz quando entram em movimento. Era poss\u00edvel ver o rastro de luz que o barco deixava por onde passava.<\/p>\n<p>Dentre todas maravilhas a mais intrigante \u00e9 o nosso universo infinito. Um constante mist\u00e9rio do mundo metaf\u00edsico, invis\u00edvel e inapreens\u00edvel que a ci\u00eancia em sua luta pelo conhecimento sempre deixar\u00e1 na fresta da imagina\u00e7\u00e3o. Basta uma noite vendo as gal\u00e1xias e suas milh\u00f5es de estrelas para entendermos quanto somos pequenos.<\/p>\n<p>Mais de 70% da superf\u00edcie de Terra \u00e9 \u00e1gua. Nossos oceanos s\u00e3o respons\u00e1veis por grande parte do nosso equil\u00edbrio ambiental. S\u00e3o as algas marinhas o pulm\u00e3o da mundo e s\u00e3o os oceanos os distribuidores da energia solar, regulando e alterando o clima. O Oceano Pac\u00edfico \u00e9 o maior e mais profundo dos oceanos &#8211; sua profundidade m\u00e9dia \u00e9 de 3.940 metros e seu ponto mais profundo \u00e9 de 10.920 metros. Ele cobre a 46% da superf\u00edcie terrestre, separando a Am\u00e9rica do Sul e no Norte da \u00c1sia e Austr\u00e1lia.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" align=\"right\" class=\"images-rel\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_2\/rel_03\/2.jpg\" alt=\"Veleiro no Oceano Pac\u00edfico\"\/><\/p>\n<p>Pela primeira vez temos uma tecnologia de sat\u00e9lites que nos permite monitorar a vida na Terra e quantificar as altera\u00e7\u00f5es que est\u00e3o sendo provocadas por n\u00f3s humanos nos continentes e oceanos.<\/p>\n<p>&#8220;A Terra est\u00e1 passando por sua sexta grande onda de extin\u00e7\u00e3o. As cinco primeiras foram causadas provavelmente por coliz\u00f5es de meteoritos com nosso planeta que causaram uma grande nuvem de poeira e a diminui\u00e7\u00e3o da temperatura global. N\u00f3s humanos somos respons\u00e1veis pela pela sexta grande onda. Biologistas estimam que 11% dos p\u00e1ssaros terrestres desaparecer\u00e3o em breve. Os bot\u00e2nicos alertam que uma de cada oito plantas entrar\u00e3o em extin\u00e7\u00e3o. Metade de todas as esp\u00e9cies vivas podem desaparecer no pr\u00f3ximo s\u00e9culo.&#8221;<\/p>\n<p>Atlas of the World \u2013 seventh edition \u2013 National Geographic<\/p>\n<p>A destrui\u00e7\u00e3o \u00e9 expl\u00edcita e o grande crime \u00e9 nosso imenso crescimento demogr\u00e1fico. Nas \u00e1reas mais populosas da Am\u00e9rica do Norte, Europa, India e China as esp\u00e9cies nativas vivem em constante amea\u00e7a. Os seis bilh\u00f5es de habitantes que vivemos hoje na Terra consumimos aproximadamente metade da produ\u00e7\u00e3o natural do planeta e mais da metade de sua \u00e1gua doce.<\/p>\n<p>Por mais contrastante que pare\u00e7a, os que mais colaboram com essa destrui\u00e7\u00e3o s\u00e3o os pa\u00edses &#8220;desenvolvidos&#8221; detentores da mais alta tecnologia e baixos \u00edndices de analfabetismo. Jap\u00e3o \u00e9 um exemplo &#8211; com um dos menores \u00edndices de analfabetismo do mundo \u00e9 um dos poucos pa\u00edses que segue matando nossas baleias. Possui um ministro da Agricultura que acredita que devemos mat\u00e1-las para que os humanos n\u00e3o morram de fome. -&#8220;Voc\u00eas sabem que as baleias consomem de tr\u00eas a cinco vezes mais animais marinhos que os seres humanos?&#8221; &#8211; palavras do ministro da Agricultura do Jap\u00e3o Tsutomu Takebe. Inacredit\u00e1vel! Os Estados Unidos, um dos pa\u00edses mais &#8220;desenvolvidos&#8221; do mundo, \u00e9 o que mais consome energia e lan\u00e7a mon\u00f3xido de carbono na atmosfera. Se nega a diminuir esse percentual em detrimento da diminui\u00e7\u00e3o de sua produ\u00e7\u00e3o e poderio econ\u00f4mico &#8211; o que contribui para o aquecimento global que \u00e9 hoje um dos nossos maiores problemas ambientais.<\/p>\n<p>O problema da eleva\u00e7\u00e3o das temperaturas globais, que se estima um aumento de at\u00e9 3 graus no pr\u00f3ximo s\u00e9culo, acarretar\u00e1 uma diminui\u00e7\u00e3o das calotas polares e aumento no n\u00edvel dos mares em todo o mundo, acabando por inundar as \u00e1reas costeiras dos continentes e desaparecer pequenas ilhas, \u00e1reas essas onde est\u00e3o concentradas aproximadamente 30 a 40% da popula\u00e7\u00e3o humana. Parte dos at\u00f3is e ilhas da Oceania correm risco de desaparecer.<\/p>\n<p>Diante de tantas amea\u00e7as e de fatos que nos parecem t\u00e3o distantes muitas vezes nos sentimos impotentes. Ficamos esperando do mundo uma resposta que n\u00e3o chegar\u00e1 nunca se cada um n\u00e3o fizer seu pequeno esfor\u00e7o. Para salvar um oceano o primeiro passo \u00e9 respeitar o pequeno riacho que passa perto de nossas casas.<\/p>\n<p>Velejando temos uma boa no\u00e7\u00e3o de nossa interfer\u00eancia no meio ambiente. Na &#8220;casa ambulante&#8221; vemos a quantidade de \u00e1gua doce, comida e energia que consumimos e o lixo que produzimos. Todo lixo \u00e9 dividido em org\u00e2nico e inorg\u00e2nico. O org\u00e2nico \u00e9 lan\u00e7ado no mar e facilmente decomposto e o inorg\u00e2nico \u00e9 lavado e guardado para ser retirado na terra. Em geral grande parte do lixo inorg\u00e2nico &#8211; metais, pl\u00e1sticos e vidros &#8211; pode (ou poderia) ser reciclado, diminuindo a polui\u00e7\u00e3o e utiliza\u00e7\u00e3o de energia.<\/p>\n<p>De Cairns entrei como tripulante num veleiro sundeer 60 p\u00e9s. Foi como estar na beira de uma estrada e conseguir carona num Rolls Royce. Foram oito dias velejando com uma r\u00e1pida parada entre Cairns e Darwin, na Thursday Island, uma ilha australiana perto de Papua Nova Guin\u00e9. Passamos pelo Estreito de Torres e pegamos um vento constante e uma forte correnteza no encontro das \u00e1guas do Mar de Arafura e Oceano Pac\u00edfico. A ilha \u00e9 famosa pelo cultivo de p\u00e9rolas e sua popula\u00e7\u00e3o \u00e9 uma mescla de abor\u00edgines, melan\u00e9sios e japoneses.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" align=\"left\" class=\"images-rel\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_2\/rel_03\/3.jpg\" alt=\"Venda de p\u00e9rolas nas ilhas ao norte da Austr\u00e1lia\"\/><\/p>\n<p>As maiores preocupa\u00e7\u00f5es em um veleiro s\u00e3o um tripulante cair no mar, o veleiro ser atropelado por um navio, bater a quilha num local raso ou, no sudeste asi\u00e1tico, ser assaltado por piratas. Navegar no litoral muitas vezes \u00e9 mais perigoso que em alto mar pois o perigo da baixa profundidade \u00e9 constante. Os furac\u00f5es em alto mar tamb\u00e9m s\u00e3o menos perigosos que no litoral. Em algumas competi\u00e7\u00f5es oce\u00e2nicas os veleiros chegam a procurar os locais de furac\u00e3o para terem ventos mais fortes.<\/p>\n<p>Deixamos as \u00e1guas do Pac\u00edfico e fomos para o Golfo de Carpent\u00e1ria no Mar de Arafura navegando em mar aberto at\u00e9 Darwin completando 1500 milhas n\u00e1uticas (aproximadamente 2700 km). Nossa tripula\u00e7\u00e3o foi bastante variada: Lisandro argentino, Silvio brasileiro, Alberto espanhol e Sanja iugoslava &#8211; bons amigos que agora seguem para o sul da \u00c1frica. Bons ventos para voc\u00eas e obrigado pela carona!<\/p>\n<p>Darwin, conhecida como top end, fica no Territ\u00f3rio do Norte, fronteira do continente com o mundo asi\u00e1tico. No natal de 1974 o Ciclone Tracy destruiu a cidade que est\u00e1 at\u00e9 hoje em reconstru\u00e7\u00e3o. \u00c9 um ponto de turismo de aventura e grande parte dos visitantes s\u00e3o mochileiros em jipes. Em 1998 seus habitantes foram convidados a serem o s\u00e9timo estado da Austr\u00e1lia e o convite foi negado. Aqui parecem gostar da id\u00e9ia de &#8220;forasteiros da fronteira&#8221;. Por ser um Territ\u00f3rio n\u00e3o possuem voz no Parlamento, possuem representantes que v\u00e3o a Canberra e assistem \u00e0s sess\u00f5es mas n\u00e3o votam, n\u00e3o participam e n\u00e3o possuem nenhuma influ\u00eancia. Parece pat\u00e9tico mas \u00e9 verdade! A popula\u00e7\u00e3o vota mas seus votos n\u00e3o contam.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" align=\"left\" class=\"images-rel\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_2\/rel_03\/4.jpg\" alt=\"Didjerido ou \"Yidarki\" \u2013 instrumento de sopro abor\u00edigine\"\/><\/p>\n<p>O norte da Austr\u00e1lia \u00e9 onde se concentra grande parte dos abor\u00edgines. At\u00e9 1970 grande parte dos filhos abor\u00edgines eram separados de seus pais para serem adotados ou enviados a centros p\u00fablicos &#8211; uma forma est\u00fapida de prepar\u00e1-los para uma vida com os brancos \u2013 o mais surpreendente \u00e9 que at\u00e9 os anos setenta isso era legalizado, os pais abor\u00edgines n\u00e3o possu\u00edam a cust\u00f3dia legal de seus filhos que era responsabilidade do Estado. Nessa \u00e9poca tamb\u00e9m ocorreram v\u00e1rios deslocamentos for\u00e7ados das comunidades que foram para locais sem interesses imobili\u00e1rios. Muitos suic\u00eddios ocorreram. Hoje o Estado tenta dar apoio financeiro e facilidades para adquirir casas, carros, etc. mas o estrago foi grande demais para ser reparado somente com dinheiro. Eles perderam suas terras, desestruturaram suas fam\u00edlias e n\u00e3o conseguem se adaptar ao mundo &#8220;moderno&#8221;. Infelizmente n\u00e3o passei em nenhuma reserva abor\u00edgine e a \u00fanica imagem que fiquei dessas comunidades foi de b\u00eabados nas cidades.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" align=\"right\" class=\"images-rel\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_2\/rel_03\/5.jpg\" alt=\"Abor\u00edgines b\u00eabados \u2013 cena comum nas cidades australianas\"\/><\/p>\n<p>Em Darwin finalizei minha etapa de dois meses na Austr\u00e1lia com 2000 km pedalados e v\u00e1rios quil\u00f4metros de caronas. Peguei um avi\u00e3o (made in Brazil! &#8211; Embraer) de Darwin e acabo de chegar na ilha do Timor. A bicicleta n\u00e3o coube no avi\u00e3o e vem de navio. Uma parte da ilha \u00e9 da Indon\u00e9sia e a outra \u00e9 do Timor Leste, a Na\u00e7\u00e3o mais nova do mundo, que acaba de obter sua independ\u00eancia (20 de maio de 2002). D\u00e1 at\u00e9 um frio na barriga de ver esse momento hist\u00f3rico t\u00e3o perto.<\/p>\n<p>Bem vinda \u00c1sia!<br \/>\nUm abra\u00e7o e at\u00e9 a pr\u00f3xima<\/p>\n<p><strong>Para saber mais<\/strong><br \/>\nAcompanhe as not\u00edcias da C\u00fapula Mundial de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel que est\u00e1<br \/>\nocorrendo hoje em Joanesburgo:<br \/>\nwww.riomaisdez.org.br<br \/>\nwww.rio-plus-10.org<br \/>\nwww.earthsummit2002.org<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>19.AGO.2002 Com poucos dias em Cairns consegui a esperada carona de veleiro rumo ao sudeste asi\u00e1tico, Estreito de Torres, paramos em Thursday Island e seguimos pelo Mar de Arafura at\u00e9 Darwin, de onde peguei um avi\u00e3o para cruzar o Mar do Timor e chegar em Dili, no Timor Leste. 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