{"id":546,"date":"2009-10-21T17:51:12","date_gmt":"2009-10-21T20:51:12","guid":{"rendered":"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/?page_id=546"},"modified":"2024-03-16T14:20:31","modified_gmt":"2024-03-16T14:20:31","slug":"etapa-3-relatorio-7","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/?page_id=546","title":{"rendered":"Etapa 3 \u2013 Relat\u00f3rio 7"},"content":{"rendered":"<h3>Salam, Os \u00faltimos dias no Ir\u00e3 foram correndo de ladr\u00e3o e de pol\u00edcia.<\/h3>\n<p>Os \u00faltimos dias no Ir\u00e3 foram correndo de                        ladr\u00e3o e de pol\u00edcia. Primeiro tentaram nos                        assaltar perto da fronteira com o Iraque. Depois, j\u00e1                        perto do mar C\u00e1spio, a pol\u00edcia desconfiou                        que f\u00f4ssemos espi\u00f5es e nos seguiu por cinco                        dias. Basta! Resolvemos pegar um \u00f4nibus e fugir do                        pa\u00eds.<\/p>\n<p>De Khorram Abad, ao sudoeste do Ir\u00e3, seguimos pedalando                        por uma \u00e1rea \u00e1rida com algumas montanhas e                        poucas \u00e1rvores. N\u00e3o existem hot\u00e9is                        nesse trecho, contamos com a hospitalidade iraniana e dormimos                        em casas de fam\u00edlias. Essa regi\u00e3o foi a mais                        bombardeadas durante a guerra <strong>Ir\u00e3 X Iraque <\/strong>e                        ainda est\u00e1 se recompondo da destrui\u00e7\u00e3o.                        Vimos, nas ruas e nas casas, v\u00e1rias fotos de m\u00e1rtires                        dessa guerra.<\/p>\n<p>Embora a hist\u00f3ria seja de tanta viol\u00eancia                        n\u00f3s vivenciamos ali algumas situa\u00e7\u00f5es                        de total <strong>singeleza<\/strong>. Conhecemos um estudante de administra\u00e7\u00e3o                        que est\u00e1 esperando a m\u00e3e arrumar uma esposa                        para ele. \u2013 N\u00e3o gosto de namorar, pedi para minha                        m\u00e3e e ela est\u00e1 procurando uma mulher de boa                        fam\u00edlia para eu casar. Nos afirmou. Numa outra situa\u00e7\u00e3o                        acampamos perto de um barrac\u00e3o com um casal de velhinhos.                        Na manh\u00e3 nos ofereceram ch\u00e1 e, sem trocarmos                        nenhuma palavra, nos despediram em prantos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_3\/rel_07\/III-07%20Foto%2001%20-%20%20Transporte%20no%20sul%20do%20Ira.JPG\" alt=\"\" width=\"124\" height=\"220\" \/><\/p>\n<p>Transporte no sul do Ir\u00e3<\/p>\n<p>Nas paradas de beira de estrada sempre cham\u00e1vamos                        muita aten\u00e7\u00e3o e reun\u00edamos curiosos.                        Em uma das paradas apareceu um policial no meio da agita\u00e7\u00e3o                        e nos pediu os <strong>documentos<\/strong>. Apesar de estarmos com                        tudo correto ele n\u00e3o nos devolveu os passaportes                        e falou para irmos para o posto policial. Estranho&#8230; nos                        pareceu corrup\u00e7\u00e3o. Arrancamos o passaporte                        da m\u00e3o dele e contamos com a ajuda do grupo de pessoas                        ao redor que o convenceu a parar de nos perturbar.<\/p>\n<p>Seguimos pedalando entre planta\u00e7\u00f5es de trigo                        e tomate e ap\u00f3s tr\u00eas dias chegamos em Kermanshah,                        a maior cidade iraniana perto da <strong>fronteira com o Iraque<\/strong>.                        Esta foi uma das cidades mais destru\u00eddas durante                        a guerra e hoje existe um enorme quartel em constante estado                        de alerta. Por todos os lados existem barricadas e carros                        do ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_3\/rel_07\/III-07%20Foto%2002%20-%20Sul%20do%20Ira.JPG\" alt=\"\" width=\"220\" height=\"123\" \/><\/p>\n<p>Logo quando chegamos uma camionete nos parou e um senhor                        saiu falando em persa. Parecia mais um querendo nos ajudar                        ou perguntando de que pa\u00eds \u00e9ramos. Sem entender                        nada falamos \u2013Brasil and Germany! O homem seguiu falando.                        Perguntamos ent\u00e3o por um hotel. Ele indicou uma rua                        e depois nos mostrou um ma\u00e7o de dinheiro e apontou                        para o meu bolso. A princ\u00edpio pensei que queria nos                        cobrar pela informa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o o sujeito                        voltou para o carro, <strong>pegou uma faca e saiu com uma cara                        de louco<\/strong>. Nunca pedalamos tanto! O malandro voltou para                        o carro e come\u00e7ou a nos seguir pela cidade. Pareceu                        filme policial. Ele de carro e agente de bicicleta. Entramos                        na contram\u00e3o de uma avenida e acabamos conseguindo                        nos esconder. Fomos dar queixa na pol\u00edcia mas ao                        inv\u00e9s de tentarem achar o bandido os policiais ficaram                        de papo furado perguntando sobre nossa viagem.<\/p>\n<p>Fronteira com o Iraque, quartel do ex\u00e9rcito, bandidagem                        e pol\u00edcia incompetente. A pergunta era \u00f3bvia                        <strong>\u2013 O qu\u00ea que n\u00f3s estamos fazendo aqui? <\/strong> Ao inv\u00e9s de irmos para um hotel fomos direto                        para a esta\u00e7\u00e3o e pegamos o primeiro \u00f4nibus                        para sair da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Fomos para o norte. No caminho tomamos um banho improvisado                        num banheiro de restaurante e chegamos \u00e0s 4 da madrugada                        na cidade de Zanjam.Os hot\u00e9is estavam fechados mas                        por sorte um simp\u00e1tico iraniano apareceu e nos ofereceu                        sua casa para dormirmos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_3\/rel_07\/III-07%20Foto%2003%20-%20criancada%20em%20Zanjan.jpg.JPG\" alt=\"\" width=\"189\" height=\"200\" \/><\/p>\n<p>Crian\u00e7ada em Zanjan<\/p>\n<p>Passamos um dia com a simp\u00e1tica fam\u00edlia que                        nos ajudou a descontrair e decidir a pr\u00f3xima rota.                        Decidimos atravessar o lindo vale do rio Gezel Uzam, subir                        as montanhas Talesh e descer para o mar C\u00e1spio. Para                        evitar mais urucubaca fizeram uma cerim\u00f4nia onde passamos                        debaixo do alcor\u00e3o e fomos aben\u00e7oados com                        \u00e1gua e p\u00e9talas na despedida.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_3\/rel_07\/III-07%20Foto%2004%20-%20vale%20do%20rio%20Gezel%20Uzan.JPG\" alt=\"\" width=\"250\" height=\"68\" \/><\/p>\n<p>Vale do rio Gezel Uzan<\/p>\n<p>Geralmente eu pedalo na frente da Alexandra e de tempo                        em tempo fa\u00e7o paradas para nos encontrarmos. Foi                        a forma que encontramos para ajustar nossa diferen\u00e7a                        de velocidades. No primeiro dia de pedalada eu estava alguns                        quil\u00f4metros \u00e0 frente e um <strong>carro da pol\u00edcia<\/strong> me parou. Tr\u00eas policiais verificaram que meu passaporte                        estava correto. Ao inv\u00e9s de me liberarem me obrigaram                        a ficar parado at\u00e9 a Alexandra chegar. Um comportamento                        estranho que, como bom mineiro, me deixou desconfiado. Alexandra                        chegou, verificaram que seu passaporte tamb\u00e9m estava                        correto mas n\u00e3o nos deixaram seguir sozinhos. Falaram                        que t\u00ednhamos de ir para o posto policial de Abbar,                        a 70 quil\u00f4metros dali, e durante todo o resto do dia                        nos acompanharam de carro. Uma situa\u00e7\u00e3o nada                        agrad\u00e1vel pois j\u00e1 hav\u00edamos escutado                        v\u00e1rias hist\u00f3rias de pessoas que simplesmente                        desaparecem no Ir\u00e3. A cada quil\u00f4metro a mente                        ficava mais criativa e pessimista sobre o que poderia acontecer                        no tal posto policial.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_3\/rel_07\/III-07%20Foto%2005%20-%20Vila%20perto%20de%20Zanjan.jpg.JPG\" alt=\"\" width=\"220\" height=\"163\" \/><\/p>\n<p>Vila no norte do Ir\u00e3<\/p>\n<p>Separamos os n\u00fameros de telefones das nossas embaixadas                        e planejamos avis\u00e1-las antes de entrarmos no posto                        policial. Chegamos na pequena Abbar no entardecer, desobedecemos                        os policiais que queriam que fossemos direto para o posto,                        desviamos o caminho e fomos para a rua principal. Encontramos                        o \u00fanico telefone p\u00fablico da pequena cidade                        mas ele n\u00e3o estava funcionando.<\/p>\n<p>N\u00e3o teve outra solu\u00e7\u00e3o. Tivemos de                        ir para o posto e nossa \u00fanica garantia foram tr\u00eas                        moradores que nos acompanharam. No posto policial encontramos                        um tradutor que traduziu as <strong>milhares de perguntas<\/strong>.                        Queriam saber se t\u00ednhamos bin\u00f3culos, computador,                        qual era o nosso objetivo, etc. Ficamos receosos que revistassem                        nossas bagagens. Apesar de sermos meros viajantes possu\u00edmos                        um verdadeiro arsenal de espi\u00e3o \u2013 c\u00e2mera digital,                        notebook, gps, etc. Respondemos que t\u00ednhamos apenas                        c\u00e2mera fotogr\u00e1fica, barraca, roupas, ferramentas                        e nosso \u00fanico objetivo era fazer turismo de bicicleta.                        No final nos deixaram partir e fomos dormir na casa de um                        dos moradores que nos acompanhou no interrogat\u00f3rio.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_3\/rel_07\/III-07%20Foto%2006%20-%20Montanhas%20perto%20do%20mar%20Caspio.JPG\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/p>\n<p>Montanhas perto do mar C\u00e1spio<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 do outro dia os policiais nos seguiram                        novamente alegando que era &#8220;para a nossa seguran\u00e7a&#8221;.                        Falamos que gostar\u00edamos de ir sozinhos e n\u00e3o                        quer\u00edamos a companhia deles mas nos explicaram que                        eram <strong>ordens do comandante<\/strong> e tinham do obedecer. Passamos                        todo o dia numa linda estrada de terra com a indesej\u00e1vel                        companhia. Na pr\u00f3xima cidade outro carro nos esperava                        e no outro dia fomos novamente seguidos. No quarto dia a                        situa\u00e7\u00e3o ficou ainda mais estranha. Uma pickup                        nova com dois policiais bem vestidos e um tradutor apareceu                        exclusivamente para nos acompanhar. O tradutor nos falou                        outra vez que era para a &#8220;nossa seguran\u00e7a&#8221;                        e numa conversa j\u00e1 bem menos amena explicamos que                        a pol\u00edcia era totalmente dispens\u00e1vel e gostar\u00edamos                        ir sozinhos. A discuss\u00e3o foi in\u00fatil e continuaram                        nos seguindo 24 horas por dia. Nenhuma pol\u00edcia disponibiliza                        tanta estrutura para a seguran\u00e7a de dois simples                        turistas! Finalmente conseguimos conversar com nossas embaixadas                        e ambas nos recomendaram sair do pa\u00eds o mais r\u00e1pido                        poss\u00edvel. Ficamos um dia na pequena cidade de Masuleh                        na esperan\u00e7a de nos deixarem em paz mas fizeram vig\u00edlia                        na frente do nosso hotel. J\u00e1 n\u00e3o est\u00e1vamos                        tirando fotos de nada e desconfiando de todos que chegavam                        para conversar. No dia seguinte descemos a motanha at\u00e9                        Rasht de onde pegamos um \u00f4nibus direto para Tabriz,                        a meio caminho para a Turquia. Parece que os policiais n\u00e3o                        nos seguiram. No outro dia pegamos outro \u00f4nibus at\u00e9                        Orumieh e pedalamos os \u00faltimos quarenta quil\u00f4metros                        at\u00e9 a esperada fronteira.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_3\/rel_07\/III-07%20Foto%2007%20-%20Adeus%20Ira.jpg\" width=\"200\" height=\"143\" \/><\/p>\n<p>Fronteira com a Turquia -Adeus Ir\u00e3!<\/p>\n<p>Nunca saberemos a real dist\u00e2ncia que ficamos do perigo.                        Ao inv\u00e9s de nos proteger a pol\u00edcia nos assustou                        com seu rigoroso controle e nos deu uma pequena amostra                        do terror que o governo exerce vigiando toda popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Espero que os estudantes sigam lutando e que a liberdade                        seja alcan\u00e7ada sem viol\u00eancia. Tenho esperan\u00e7a                        que as mulheres parem de pagar por um pecado que n\u00e3o                        fizeram e em breve possam cantar, beijar, mostrar os cabelos                        e viver em igualdade com os homens.<\/p>\n<p>No saldo final pedalamos apenas 650 km durante nossos 25                        dias no Ir\u00e3. Vimos menos de 20 turistas estrangeiros                        e nossos dois melhores momentos foram entrar e sair do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Agora estamos no leste Turquia passando por uma regi\u00e3o                        ocupada pelos curdos&#8230; mas isso fica para o pr\u00f3ximo                        relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Grande abra\u00e7o,<\/p>\n<p>Argus<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Salam, Os \u00faltimos dias no Ir\u00e3 foram correndo de ladr\u00e3o e de pol\u00edcia. Os \u00faltimos dias no Ir\u00e3 foram correndo de ladr\u00e3o e de pol\u00edcia. Primeiro tentaram nos assaltar perto da fronteira com o Iraque. Depois, j\u00e1 perto do mar C\u00e1spio, a pol\u00edcia desconfiou que f\u00f4ssemos espi\u00f5es e nos seguiu por cinco dias. Basta! Resolvemos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":351,"menu_order":60,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-546","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/546","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=546"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/546\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1806,"href":"https:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/546\/revisions\/1806"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/351"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=546"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}