{"id":582,"date":"2009-10-21T18:07:51","date_gmt":"2009-10-21T21:07:51","guid":{"rendered":"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/?page_id=582"},"modified":"2024-03-16T14:20:31","modified_gmt":"2024-03-16T14:20:31","slug":"etapa-6a-relatorio-1","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/?page_id=582","title":{"rendered":"Etapa 6A \u2013 Relat\u00f3rio 1"},"content":{"rendered":"<h4>Qu\u00eania.NOV.2004<\/h4>\n<h3>Jambo amigos, Aterrisei na \u00c1frica e recomecei a pedalada em Mombasa no Qu\u00eania.<\/h3>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_6\/rel_01\/flag.gif\" alt=\"\" width=\"80\" height=\"53\" align=\"left\" \/><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_6\/rel_01\/mapa.gif\" alt=\"\" width=\"80\" height=\"53\" \/><\/p>\n<p>Precisei de um tempo para passar o choque de sair da Europa e vir diretamente para c\u00e1. O pa\u00eds \u00e9 quente e muito muito pobre. Passado o susto dos primeiros dias segui pedalando para o sul pelo litoral.<br \/>\n<strong>Um pouco sobre o<\/strong> <strong>Qu\u00eania&#8230; <\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cNo S\u00e9c VIII os \u00e1rabes estabeleceram col\u00f4nias no litoral do pa\u00eds. <\/em><\/p>\n<p>Os portugueses chegaram no S\u00e9c. XVI, destru\u00edram as cidades e arruinaram v\u00e1rias tribos.<\/p>\n<p>Em 1698 os portugueses foram for\u00e7ados a sair do pa\u00eds e deixaram para tr\u00e1s seus fortes abandonados e uma economia em ru\u00edna, condi\u00e7\u00e3o que deu continuidade ao com\u00e9rcio de marfim e escravos em Zanzibar.<\/p>\n<p>No final do S\u00e9c. XIX um grupo germ\u00e2nico-brit\u00e2nico decidiu executar uma linha de trem ligando Uganda e a costa. Vieram trabalhadores indianos e com eles a epidemia smallpox que matou metade da popula\u00e7\u00e3o local.<\/p>\n<p>Em 1884 Africa foi dividia em 48 estados pelos europeus na Confer\u00eancia de Berlim. \u201cAs divis\u00f5es pol\u00edticas dos pa\u00edses n\u00e3o respeitaram as culturas locais ou as realidades geopol\u00edticas daquele tempo: muitas comunidades foram divididas e outras, diferentes e muitas vezes antigas inimigas, foram colocadas juntas para atender \u00e0s necessidades da nova era europ\u00e9ia.<\/p>\n<p>Em 1948, 4200 km2 de aproximadamente 5000 km2 de \u00e1reas f\u00e9rteis estavam nas m\u00e3os de 5000 europeus, enquanto um milh\u00e3o de Kikuyu (um dos maiores grupos nativos) ocupavam pouco mais de 1000 km2. N\u00e3o existiu nenhuma indeniza\u00e7\u00e3o ou compensa\u00e7\u00e3o para esse roubo.<\/p>\n<p>Na costa a maioria da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 mu\u00e7ulmana mas no m\u00e9dia do pa\u00eds eles representam apenas 6% enquanto 73% \u00e9 crist\u00e3 e 20% pratica religi\u00f5es tradicionais locais.<\/p>\n<p>Apenas 17.2% do terreno queniano \u00e9 f\u00e9rtil e hoje \u00e9 ocupado por mais de 80% da popula\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>The New Internationalist<\/p>\n<p>A sociedade \u00e9 tribal e quase todos falam o sua\u00edle e o ingl\u00eas. <em>\u201cNossa diversidade nos leva a desafios lingu\u00edsticos. Por isso temos uma na\u00e7\u00e3o onde no m\u00ednimo 30 por cento de seus habitantes n\u00e3o consegue comunicar em nenhum idioma.\u201d <\/em><\/p>\n<p>Coment\u00e1rio no jornal the Nation nov-2004<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de praticamente toda a \u00c1frica \u00e9 marcada por desgra\u00e7as e a situa\u00e7\u00e3o hoje n\u00e3o \u00e9 muito diferente.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_6\/rel_01\/images\/Sinuca em Mombassa.jpg\" alt=\"Sinuca em Mombassa\" hspace=\"0\" align=\"absmiddle\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_6\/rel_01\/images\/Cinema%20em%20Mombassa.jpg\"  alt=\"Cinema em Mombassa\"  align=\"absmiddle\" \/><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_6\/rel_01\/images\/Saida%20do%20ferry%20para%20a%20ilha%20de%20Mombassa.jpg\" alt=\"Saida do ferry para a ilha de Mombassa\" align=\"absmiddle\" \/><\/p>\n<p><strong>A COLONIZA\u00c7\u00c3O CONTINUA <\/strong><\/p>\n<p><strong> O europeu gasta, o indiano gerencia e o queniano trabalha. <\/strong><\/p>\n<p>Para qu\u00ea colonizar se \u00e9 poss\u00edvel apenas explorar?<\/p>\n<p>A teoria \u00e9 simples e funciona em praticamente todo terceiro mundo. Ao inv\u00e9s de chamar o pa\u00eds de col\u00f4nia, apenas exploram sua m\u00e3o de obra barata e seus recursos&#8230; sem a necessidade de fincar uma bandeira no orgulho de ningu\u00e9m. \u00c9 uma releitura da coloniza\u00e7\u00e3o em que as estrat\u00e9gias mudam mas a situa\u00e7\u00e3o social continua igual. A independ\u00eancia nunca existiu. Desde a chegada dos colonizadores, os habitantes nativos perderam o controle econ\u00f4mico-pol\u00edtico do pr\u00f3prio pa\u00eds e at\u00e9 hoje seguem dependentes e explorados.<\/p>\n<p>O <strong>turismo<\/strong> no Qu\u00eania \u00e9 um exemplo. Essa ind\u00fastria \u00e9 a maior provedora de divisas do pa\u00eds mas essas divisas v\u00eam de fora e v\u00e3o para fora. Em uma das praias que visitei, os donos de hot\u00e9is cuja di\u00e1ria custa 300 d\u00f3lares s\u00e3o indianos, o dono do bar-prostitui\u00e7\u00e3o \u00e9 um alem\u00e3o e os quenianos s\u00e3o os gar\u00e7ons, prostitutas ou, quando muito empreendedores, camel\u00f4s ou donos do restaurante barato.<\/p>\n<p>A <strong>diferen\u00e7a social<\/strong> entre os turistas, maioria europeu, e o povo \u00e9 gritante. Para conterem a press\u00e3o social gerada, fizeram uma esp\u00e9cie de \u201ccidade medieval\u201d. Do lado de dentro da \u201cmuralha\u201d est\u00e3o os safaris, os hot\u00e9is cinco estrelas, os melhores restaurantes e as melhores localiza\u00e7\u00f5es do pa\u00eds. Do lado de fora est\u00e1 o povo miser\u00e1vel sem trabalho e sem comida.<\/p>\n<p>O governo \u00e9 <strong>corrupto<\/strong> e, segundo me disseram , possui acordos com os indianos que privatizam as praias com hot\u00e9is. Al\u00e9m da ilegalidade da privatiza\u00e7\u00e3o, o governo tamb\u00e9m disponibiliza a pol\u00edcia para fazer a \u201climpeza da praia\u201d com o \u201cbota-fora\u201d dos quenianos todos os dias \u00e0s 18:00.<\/p>\n<p>\u201cEles nos fazem prisioneiros no nosso pr\u00f3prio pa\u00eds. \u00c9 o sistema babil\u00f4nico\u201d me falou o amigo queniano Shilingi em Mombasa, indignado com a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por exemplo a praia de Shanzu \u00e9 hoje um grupo de hot\u00e9is que privatizaram o seu acesso. Os hot\u00e9is constru\u00edram uma <strong>fortaleza paradis\u00edaca<\/strong> com imensos gramados entre coqueiros, v\u00e1rias piscinas, restaurantes de primeira linha e vistas magn\u00edficas do mar. Um para\u00edso para quem pode gastar. Um lugar onde <strong>todo branco \u00e9 bem vindo e todo negro precisa se identificar<\/strong>. Entrei em v\u00e1rios desses hot\u00e9is para tirar fotos e vi todos os brancos desfrutando e os negros trabalhando. A triste submiss\u00e3o \u00e9 infelizmente a \u00fanica alternativa de renda da popula\u00e7\u00e3o local. Al\u00e9m do desgosto da situa\u00e7\u00e3o ainda tive a infelicidade de escutar o coment\u00e1rio de um grupo europeu \u2013 A praia \u00e9 linda, pena que tem tanto negro.<\/p>\n<p>\u00c9 uma sita\u00e7\u00e3o t\u00e3o ruim que \u00e9 realmente dif\u00edcil de imaginar alguma solu\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel. Principalmente com a imensa corrup\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. <em>A palavra corrup\u00e7\u00e3o foi inventada na \u00c1frica, bem aprendida na Am\u00e9rica do Sul e atualmente utilizada em todo o mundo.<\/em> Qu\u00eania ocupa a quinta coloca\u00e7\u00e3o no ranking mundial do Global Corruption Report 2001, Transparency International Web site. Junto com a corrup\u00e7\u00e3o vem tamb\u00e9m muita burocracia e um governo centralizado. Mas o problema n\u00e3o est\u00e1 somente no governo, faz parte da mentalidade de quase todos e atrapalha muito o desenvolvimento e a necess\u00e1ria melhoria de vida dos quenianos.<\/p>\n<p>NAIROBI<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_6\/rel_01\/images\/Amigos%20Eric%20e%20Bonny%20em%20Nairobi.jpg\" border=\"0\" alt=\"Amigos Eric e Bonny em Nairobi\" align=\"absmiddle\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_6\/rel_01\/images\/Amigos%20de%20Nairobi.jpg\" alt=\"Amigos de Nairobi\" hspace=\"30\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_6\/rel_01\/images\/Shoe%20shine.jpg\"alt=\"Shoe shine\"  \/><\/a><\/p>\n<p>Aterrisei na capital e fui direto para a casa de amigos que conhecia apenas por email. Imaginei que era uma fam\u00edlia convencional mas era um grupo de jovens que resolveram dividir a casa, fazer uma comunidade \u2013 os Hoggz family &#8211; e convidar viajantes para dividirem um pouco a vida comum dos quenianos. Segundo eles, todos v\u00e3o para a \u00c1frica para ver animais selvagens e se esquecem de conhecer o povo. Valeu pela hospedagem Hoggz!<\/p>\n<p>Andando pelo centro a minha cor destoava do resto da popula\u00e7\u00e3o totalmente negra. O fato deu ser (mais ou menos) branco me inclui automaticamente no <strong>paradigma do rico europeu<\/strong>. Isso me perturba um pouco pois poucos aqui entendem a diferen\u00e7a entre Am\u00e9rica do Sul e Europa. Mesmo eu explicando que sou um brasileiro na maior perrengue viajando de bicicleta, continuavam insistindo em negociar hot\u00e9is, safaris, massagem, drogas, etc.<\/p>\n<p>Nairobi \u00e9 uma <strong>cidade perigosa<\/strong>. Possui muito desemprego e mis\u00e9ria. De noite nem os moradores locais andam nas ruas e de dia \u00e9 preciso ficar muito esperto com tudo. Mal cheguei e j\u00e1 fui assaltado tr\u00eas vezes. N\u00e3o foram exatamente assaltos mas golpes de malandros que eu sinto at\u00e9 vergonha de ter ca\u00eddo, mas ca\u00ed. Tive papo furado de refugiado, pol\u00edcia, governo, cambista, alf\u00e2ndega, asSALTO Massai, etc.<\/p>\n<p>A grana que perdi foi o pre\u00e7o do <strong>\u201cSafari Social\u201d<\/strong> que estou fazendo. Para estar mais seguro eu poderia me proteger no mundo encantado dos hot\u00e9is de luxo mas seguramente essa Disneylandia para europeus est\u00e1 muito longe do real Qu\u00eania que vim visitar. Eu vim aqui para ver um pouco da \u00c1frica, europeu eu j\u00e1 vi na Europa.<\/p>\n<p>Depois do susto dos primeiros golpes continuei a viagem mais cauteloso. Como medidas pr\u00e1ticas de seguran\u00e7a, parei de me barbear e lavar as roupas. Logo estarei praticamente um monstro n\u00f4made. A bicicleta tamb\u00e9m ganhou um novo visual, agora estou pedalando numa<em> bikefavela<\/em> cheia de pl\u00e1sticos velhos nos alforges.<\/p>\n<p>De Nairobi fui de \u00f4nibus para Mombasa de onde comecei a pedalada africana.<\/p>\n<p>MOMBASSA<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\" http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_6\/rel_01\/images\/Shanzu%20Beach.jpg\" alt=\"Shanzu Beach\" align=\"absmiddle\" \/><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_6\/rel_01\/images\/Vendendo%20tecidos.jpg\"alt=\"Vendendo tecidos\"  \/><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_6\/rel_01\/images\/Vista%20de%20um%20dos%20hoteis%20de%20luxo%20da%20regiao.jpg\"  alt=\"Vista de um dos hoteis de luxo da regiao\" \" \/><\/p>\n<p>Mombasa \u00e9 a segunda maior cidade do pa\u00eds com um porto hist\u00f3rico ocupado por praticamente todas as civiliza\u00e7\u00f5es que estiveram por aqui.<\/p>\n<p>Passei alguns dias na praia em Mombasa refletindo sobre o caminho a seguir. A primeira op\u00e7\u00e3o foi cruzar o pa\u00eds pedalando at\u00e9 o lago Vit\u00f3ria. Com essa id\u00e9ia na cabe\u00e7a comecei a ver as fotos dos animais selvagens com outros olhos. Precisaria cruzar as reservas naturais do pa\u00eds com le\u00f5es, elefantes, girafas, rinocerontes, leopardos, etc. Interessante mas tamb\u00e9m assustador.<\/p>\n<p>Surgiu um Masai na praia que se interessou em viajar comigo at\u00e9 a tribo dele no meio do meu percurso. Perfeito &#8211; ningu\u00e9m melhor para atravessar a selva africana com voc\u00ea do que um morador local.<\/p>\n<p><strong>O asSALTO DOS MASSAI <\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_6\/rel_01\/images\/Danca%20Massai.jpg\" border=\"0\" alt=\"Danca Massai\" align=\"left\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_6\/rel_01\/images\/No%20restaurante%20com%20os%20amigos%20massai.jpg\" border=\"0\" alt=\"No restaurante com os amigos massai\" hspace=\"30\" align=\"bottom\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_6\/rel_01\/images\/Massais%20Lelelit%20e%20Lekuchulah%20em%20Mombassa.jpg\" alt=\"Massais Lelelit e Lekuchulah em Mombassa\" align=\"middle\" \/><\/a><\/p>\n<p>Os Massai s\u00e3o famosos pelas suas roupas vermelhas, bijouterias coloridas e altos saltos durante as dan\u00e7as. Vivem originalmente nas savanas mas, por causa do turismo, parte da tribo se moveu para a praia e vive da venda de souveniers, fotos, apresenta\u00e7\u00f5es, etc. Vi apenas homens e segundo eles as mulheres n\u00e3o podem ir para a praia porque n\u00e3o s\u00e3o \u201cguerreiras\u201d. Todos j\u00e1 mataram um le\u00e3o (haja le\u00e3o!) e possuem celular e email.<\/p>\n<p>O sangue \u00e1rabe fez dos Massais <strong>bons negociantes<\/strong>. O amigo Massai conseguiu de uma forma engenhosa, depois de tr\u00eas dias de muito papo furado, me convencer a emprestar-lhe dinheiro para comprar uma bicicleta. No outro dia ele me apareceu dizendo que foi roubado.<\/p>\n<p>Eu pressenti o golpe mas achei que valeu a pena arriscar. Ficaria com a consci\u00eancia pesada de pensar que, por causa de dinheiro, eu deixaria no caminho algu\u00e9m sonhando em viajar de bicicleta comigo.<\/p>\n<p>Um pouco decepcionado e assustado com a quantidade de golpes que recebi em t\u00e3o pouco tempo, mudei de percurso e segui sozinho pedalando rumo sul pelo litoral do Qu\u00eania.<\/p>\n<p>A maioria da popula\u00e7\u00e3o costeira \u00e9 <em>Mijikenda <\/em>, uma uni\u00e3o de nove diferentes tribos. \u201cEles (pessoas da gera\u00e7\u00e3o antiga dos <em>Mijikenda <\/em>) acreditam que ser rico n\u00e3o est\u00e1 relacionado ao dinheiro e sim \u00e0 quantidade de mulheres e crian\u00e7as que possuem. Meu pai possui quatro mulheres e dezesseis filhos. Felizmente eu sou o filho mais velho da primeira mulher e por isso toda fam\u00edlia deve me respeitar.\u201d me contou o amigo Iha, 20 anos, da tribo <em>Giriama <\/em> (uma das tribos <em>Mijikenda <\/em>). Todos da nova gera\u00e7\u00e3o que conversei s\u00e3o conscientes da necessidade de controle de natalidade e me disseram que pretendem ter apenas 2 ou 3 filhos.<\/p>\n<p>A influ\u00eancia \u00e1rabe \u00e9 muito forte em toda a costa. Em Mombassa as mesquitas s\u00e3o cheias de vida e luz e mais de 70% da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 mu\u00e7ulmana. Por causa das rotas mar\u00edtimas com a \u00cdndia e Europa, ali tamb\u00e9m encontrei hindus e crist\u00e3os.<\/p>\n<p>CONTINENTE IRM\u00c3O<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_6\/rel_01\/images\/Mercado%20em%20Mombassa.jpg\" border=\"0\" alt=\"Mercado em Mombassa\" align=\"absmiddle\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_6\/rel_01\/images\/Raphael%20fa%20do%20Brasil.jpg\" border=\"0\" alt=\"Raphael fa do Brasil\" hspace=\"30\" align=\"absmiddle\" \/><\n\n<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_6\/rel_01\/images\/Futebol%20nos%20fundos%20do%20Forte%20Jesus%20em%20Mombassa.jpg\" border=\"0\" alt=\"Futebol nos fundos do Forte Jesus em Mombassa\" align=\"absmiddle\" \/><\/p>\n<p><em>Isso aqui o\u00f4 \u00e9 um pouquinho de Brasil iai\u00e1<\/em>.<\/p>\n<p>O clima tropical traz muitas semelhan\u00e7as.<\/p>\n<p>Aqui estou comendo manga, coco, mam\u00e3o, banana, arroz com feij\u00e3o&#8230; vejo futebol na rua e tamb\u00e9m muita malandragem.<\/p>\n<p>Durante a coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa, v\u00e1rios barcos negreiros partiram daqui para o Brasil. Junto com eles foi tamb\u00e9m muito da cultura africana que \u00e9 hoje uma das bases da cultura brasileira.<\/p>\n<p>A saudade e proximidade do Brasil est\u00e1 ficando cada vez maior!<\/p>\n<p>De Mombasa atravessei a fronteira e agora estou na Tanz\u00e2nia que ficar\u00e1 para o pr\u00f3ximo relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Grande abra\u00e7o,<\/p>\n<p>Argus<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_6\/rel_01\/images\/Ugali.jpg\" border=\"0\" alt=\"Ugali\" align=\"absmiddle\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_6\/rel_01\/images\/comendo%20no%20mercado%20aberto%20de%20Mombassa.jpg\" border=\"0\" alt=\"comendo no mercado aberto de Mombassa\" hspace=\"30\" align=\"absmiddle\" \/><br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/wp-content\/uploads\/site_images\/relatorios\/etapa_6\/rel_01\/images\/Vila%20perto%20de%20Mombassa.jpg\" border=\"0\" alt=\"Vila perto de Mombassa\" align=\"absmiddle\" \/><\/p>\n<p>&#8211; Jambo.<\/p>\n<p>&#8211; Jambo bwana.<\/p>\n<p>&#8211; Habari ngani ?<\/p>\n<p>&#8211; Mzuri sana.<\/p>\n<p>&#8211; Kenya yetu.<\/p>\n<p>&#8211; Hakuna matata&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Wangeni wote mwakaribishwa.<\/p>\n<p>&#8211; Kenya inchi zuri.<\/p>\n<p>&#8211; Hakuna matata.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d4u.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d4u s\u00f4.<\/p>\n<p>&#8211; B\u00e3o ?<\/p>\n<p>&#8211; B\u00e3o s\u00f4.<\/p>\n<p>&#8211; Eita Qu\u00eania.<\/p>\n<p>&#8211; Problema n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Todo mundo pode vir.<\/p>\n<p>&#8211; Qu\u00eania \u00e9 bonita demais.<\/p>\n<p>&#8211; Problema n\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Hello.<\/p>\n<p>&#8211; Hello mister.<\/p>\n<p>&#8211; How are you?<\/p>\n<p>&#8211; It\u00b4s ok.<\/p>\n<p>&#8211; My Kenya.<\/p>\n<p>&#8211; No problem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; All visitors are welcome.<\/p>\n<p>&#8211; Kenya is a beautiful country.<\/p>\n<p>&#8211; No problem&#8230;<\/p>\n<p><strong>Para saber mais: <\/strong><\/p>\n<p>Site oficial dos Parques Nacionais do Qu\u00eania<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.kws.org\/\">www.kws.org <\/a><\/p>\n<p>Sites sobre prostitui\u00e7\u00e3o e dicas para conduta dos turistas:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.thecode.org\/\">www.thecode.org <\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.world-tourism.org\/\">www.world-tourism.org <\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ecpat.org\/\">www.ecpat.org <\/a> ou <a href=\"http:\/\/www.ecpat.com\/\">www.ecpat.com <\/a><\/p>\n<p>Outros<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/web.amnesty.org\/\">http:\/\/web.amnesty.org <\/a><\/p>\n<p>Precisei de um tempo para passar o choque de sair da Europa e vir diretamente para c\u00e1. O pa\u00eds \u00e9 quente e muito muito pobre. Passado o susto dos primeiros dias segui pedalando para o sul pelo litoral.<\/p>\n<p>Um pouco sobre o Qu\u00eania&#8230;<\/p>\n<p>\u201cNo S\u00e9c VIII os \u00e1rabes estabeleceram col\u00f4nias no litoral do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Os portugueses chegaram no S\u00e9c. XVI, destru\u00edram as cidades e arruinaram v\u00e1rias tribos.<\/p>\n<p>Em 1698 os portugueses foram for\u00e7ados a sair do pa\u00eds e deixaram para tr\u00e1s seus fortes abandonados e uma economia em ru\u00edna, condi\u00e7\u00e3o que deu continuidade ao com\u00e9rcio de marfim e escravos em Zanzibar.<\/p>\n<p>No final do S\u00e9c. XIX um grupo germ\u00e2nico-brit\u00e2nico decidiu executar uma linha de trem ligando Uganda e a costa. Vieram trabalhadores indianos e com eles a epidemia smallpox que matou metade da popula\u00e7\u00e3o local.<\/p>\n<p>Em 1884 Africa foi dividia em 48 estados pelos europeus na Confer\u00eancia de Berlim. \u201cAs divis\u00f5es pol\u00edticas dos pa\u00edses n\u00e3o respeitaram as culturas locais ou as realidades geopol\u00edticas daquele tempo: muitas comunidades foram divididas e outras, diferentes e muitas vezes antigas inimigas, foram colocadas juntas para atender \u00e0s necessidades da nova era europ\u00e9ia.<\/p>\n<p>Em 1948, 4200 km2 de aproximadamente 5000 km2 de \u00e1reas f\u00e9rteis estavam nas m\u00e3os de 5000 europeus, enquanto um milh\u00e3o de Kikuyu (um dos maiores grupos nativos) ocupavam pouco mais de 1000 km2. N\u00e3o existiu nenhuma indeniza\u00e7\u00e3o ou compensa\u00e7\u00e3o para esse roubo.<\/p>\n<p>Na costa a maioria da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 mu\u00e7ulmana mas no m\u00e9dia do pa\u00eds eles representam apenas 6% enquanto 73% \u00e9 crist\u00e3 e 20% pratica religi\u00f5es tradicionais locais.<\/p>\n<p>Apenas 17.2% do terreno queniano \u00e9 f\u00e9rtil e hoje \u00e9 ocupado por mais de 80% da popula\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>The New Internationalist<\/p>\n<p>A sociedade \u00e9 tribal e quase todos falam o sua\u00edle e o ingl\u00eas. \u201cNossa diversidade nos leva a desafios lingu\u00edsticos. Por isso temos uma na\u00e7\u00e3o onde no m\u00ednimo 30 por cento de seus habitantes n\u00e3o consegue comunicar em nenhum idioma.\u201d<\/p>\n<p>Coment\u00e1rio no jornal the Nation nov-2004<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de praticamente toda a \u00c1frica \u00e9 marcada por desgra\u00e7as e a situa\u00e7\u00e3o hoje n\u00e3o \u00e9 muito diferente.<br \/>\nSinuca em Mombassa Cinema em Mombassa Saida do ferry para a ilha de Mombassa<\/p>\n<p>A COLONIZA\u00c7\u00c3O CONTINUA<\/p>\n<p>O europeu gasta, o indiano gerencia e o queniano trabalha.<\/p>\n<p>Para qu\u00ea colonizar se \u00e9 poss\u00edvel apenas explorar?<\/p>\n<p>A teoria \u00e9 simples e funciona em praticamente todo terceiro mundo. Ao inv\u00e9s de chamar o pa\u00eds de col\u00f4nia, apenas exploram sua m\u00e3o de obra barata e seus recursos&#8230; sem a necessidade de fincar uma bandeira no orgulho de ningu\u00e9m. \u00c9 uma releitura da coloniza\u00e7\u00e3o em que as estrat\u00e9gias mudam mas a situa\u00e7\u00e3o social continua igual. A independ\u00eancia nunca existiu. Desde a chegada dos colonizadores, os habitantes nativos perderam o controle econ\u00f4mico-pol\u00edtico do pr\u00f3prio pa\u00eds e at\u00e9 hoje seguem dependentes e explorados.<\/p>\n<p>O turismo no Qu\u00eania \u00e9 um exemplo. Essa ind\u00fastria \u00e9 a maior provedora de divisas do pa\u00eds mas essas divisas v\u00eam de fora e v\u00e3o para fora. Em uma das praias que visitei, os donos de hot\u00e9is cuja di\u00e1ria custa 300 d\u00f3lares s\u00e3o indianos, o dono do bar-prostitui\u00e7\u00e3o \u00e9 um alem\u00e3o e os quenianos s\u00e3o os gar\u00e7ons, prostitutas ou, quando muito empreendedores, camel\u00f4s ou donos do restaurante barato.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a social entre os turistas, maioria europeu, e o povo \u00e9 gritante. Para conterem a press\u00e3o social gerada, fizeram uma esp\u00e9cie de \u201ccidade medieval\u201d. Do lado de dentro da \u201cmuralha\u201d est\u00e3o os safaris, os hot\u00e9is cinco estrelas, os melhores restaurantes e as melhores localiza\u00e7\u00f5es do pa\u00eds. Do lado de fora est\u00e1 o povo miser\u00e1vel sem trabalho e sem comida.<\/p>\n<p>O governo \u00e9 corrupto e, segundo me disseram , possui acordos com os indianos que privatizam as praias com hot\u00e9is. Al\u00e9m da ilegalidade da privatiza\u00e7\u00e3o, o governo tamb\u00e9m disponibiliza a pol\u00edcia para fazer a \u201climpeza da praia\u201d com o \u201cbota-fora\u201d dos quenianos todos os dias \u00e0s 18:00.<\/p>\n<p>\u201cEles nos fazem prisioneiros no nosso pr\u00f3prio pa\u00eds. \u00c9 o sistema babil\u00f4nico\u201d me falou o amigo queniano Shilingi em Mombasa, indignado com a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por exemplo a praia de Shanzu \u00e9 hoje um grupo de hot\u00e9is que privatizaram o seu acesso. Os hot\u00e9is constru\u00edram uma fortaleza paradis\u00edaca com imensos gramados entre coqueiros, v\u00e1rias piscinas, restaurantes de primeira linha e vistas magn\u00edficas do mar. Um para\u00edso para quem pode gastar. Um lugar onde todo branco \u00e9 bem vindo e todo negro precisa se identificar. Entrei em v\u00e1rios desses hot\u00e9is para tirar fotos e vi todos os brancos desfrutando e os negros trabalhando. A triste submiss\u00e3o \u00e9 infelizmente a \u00fanica alternativa de renda da popula\u00e7\u00e3o local. Al\u00e9m do desgosto da situa\u00e7\u00e3o ainda tive a infelicidade de escutar o coment\u00e1rio de um grupo europeu \u2013 A praia \u00e9 linda, pena que tem tanto negro.<\/p>\n<p>\u00c9 uma sita\u00e7\u00e3o t\u00e3o ruim que \u00e9 realmente dif\u00edcil de imaginar alguma solu\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel. Principalmente com a imensa corrup\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. A palavra corrup\u00e7\u00e3o foi inventada na \u00c1frica, bem aprendida na Am\u00e9rica do Sul e atualmente utilizada em todo o mundo. Qu\u00eania ocupa a quinta coloca\u00e7\u00e3o no ranking mundial do Global Corruption Report 2001, Transparency International Web site. Junto com a corrup\u00e7\u00e3o vem tamb\u00e9m muita burocracia e um governo centralizado. Mas o problema n\u00e3o est\u00e1 somente no governo, faz parte da mentalidade de quase todos e atrapalha muito o desenvolvimento e a necess\u00e1ria melhoria de vida dos quenianos.<br \/>\nNAIROBI<br \/>\nAmigos Eric e Bonny em Nairobi Amigos de Nairobi Shoe shine<\/p>\n<p>Aterrisei na capital e fui direto para a casa de amigos que conhecia apenas por email. Imaginei que era uma fam\u00edlia convencional mas era um grupo de jovens que resolveram dividir a casa, fazer uma comunidade \u2013 os Hoggz family &#8211; e convidar viajantes para dividirem um pouco a vida comum dos quenianos. Segundo eles, todos v\u00e3o para a \u00c1frica para ver animais selvagens e se esquecem de conhecer o povo. Valeu pela hospedagem Hoggz!<\/p>\n<p>Andando pelo centro a minha cor destoava do resto da popula\u00e7\u00e3o totalmente negra. O fato deu ser (mais ou menos) branco me inclui automaticamente no paradigma do rico europeu. Isso me perturba um pouco pois poucos aqui entendem a diferen\u00e7a entre Am\u00e9rica do Sul e Europa. Mesmo eu explicando que sou um brasileiro na maior perrengue viajando de bicicleta, continuavam insistindo em negociar hot\u00e9is, safaris, massagem, drogas, etc.<\/p>\n<p>Nairobi \u00e9 uma cidade perigosa. Possui muito desemprego e mis\u00e9ria. De noite nem os moradores locais andam nas ruas e de dia \u00e9 preciso ficar muito esperto com tudo. Mal cheguei e j\u00e1 fui assaltado tr\u00eas vezes. N\u00e3o foram exatamente assaltos mas golpes de malandros que eu sinto at\u00e9 vergonha de ter ca\u00eddo, mas ca\u00ed. Tive papo furado de refugiado, pol\u00edcia, governo, cambista, alf\u00e2ndega, asSALTO Massai, etc.<\/p>\n<p>A grana que perdi foi o pre\u00e7o do \u201cSafari Social\u201d que estou fazendo. Para estar mais seguro eu poderia me proteger no mundo encantado dos hot\u00e9is de luxo mas seguramente essa Disneylandia para europeus est\u00e1 muito longe do real Qu\u00eania que vim visitar. Eu vim aqui para ver um pouco da \u00c1frica, europeu eu j\u00e1 vi na Europa.<\/p>\n<p>Depois do susto dos primeiros golpes continuei a viagem mais cauteloso. Como medidas pr\u00e1ticas de seguran\u00e7a, parei de me barbear e lavar as roupas. Logo estarei praticamente um monstro n\u00f4made. A bicicleta tamb\u00e9m ganhou um novo visual, agora estou pedalando numa bikefavela cheia de pl\u00e1sticos velhos nos alforges.<\/p>\n<p>De Nairobi fui de \u00f4nibus para Mombasa de onde comecei a pedalada africana.<br \/>\nMOMBASSA<br \/>\nShanzu Beach Vendendo tecidos Vista de um dos hoteis de luxo da regiao<\/p>\n<p>Mombasa \u00e9 a segunda maior cidade do pa\u00eds com um porto hist\u00f3rico ocupado por praticamente todas as civiliza\u00e7\u00f5es que estiveram por aqui.<\/p>\n<p>Passei alguns dias na praia em Mombasa refletindo sobre o caminho a seguir. A primeira op\u00e7\u00e3o foi cruzar o pa\u00eds pedalando at\u00e9 o lago Vit\u00f3ria. Com essa id\u00e9ia na cabe\u00e7a comecei a ver as fotos dos animais selvagens com outros olhos. Precisaria cruzar as reservas naturais do pa\u00eds com le\u00f5es, elefantes, girafas, rinocerontes, leopardos, etc. Interessante mas tamb\u00e9m assustador.<\/p>\n<p>Surgiu um Masai na praia que se interessou em viajar comigo at\u00e9 a tribo dele no meio do meu percurso. Perfeito &#8211; ningu\u00e9m melhor para atravessar a selva africana com voc\u00ea do que um morador local.<\/p>\n<p>O asSALTO DOS MASSAI<br \/>\nDanca Massai No restaurante com os amigos massai Massais Lelelit e Lekuchulah em Mombassa<\/p>\n<p>Os Massai s\u00e3o famosos pelas suas roupas vermelhas, bijouterias coloridas e altos saltos durante as dan\u00e7as. Vivem originalmente nas savanas mas, por causa do turismo, parte da tribo se moveu para a praia e vive da venda de souveniers, fotos, apresenta\u00e7\u00f5es, etc. Vi apenas homens e segundo eles as mulheres n\u00e3o podem ir para a praia porque n\u00e3o s\u00e3o \u201cguerreiras\u201d. Todos j\u00e1 mataram um le\u00e3o (haja le\u00e3o!) e possuem celular e email.<\/p>\n<p>O sangue \u00e1rabe fez dos Massais bons negociantes. O amigo Massai conseguiu de uma forma engenhosa, depois de tr\u00eas dias de muito papo furado, me convencer a emprestar-lhe dinheiro para comprar uma bicicleta. No outro dia ele me apareceu dizendo que foi roubado.<\/p>\n<p>Eu pressenti o golpe mas achei que valeu a pena arriscar. Ficaria com a consci\u00eancia pesada de pensar que, por causa de dinheiro, eu deixaria no caminho algu\u00e9m sonhando em viajar de bicicleta comigo.<\/p>\n<p>Um pouco decepcionado e assustado com a quantidade de golpes que recebi em t\u00e3o pouco tempo, mudei de percurso e segui sozinho pedalando rumo sul pelo litoral do Qu\u00eania.<br \/>\nO LITORAL<\/p>\n<p>A maioria da popula\u00e7\u00e3o costeira \u00e9 Mijikenda , uma uni\u00e3o de nove diferentes tribos. \u201cEles (pessoas da gera\u00e7\u00e3o antiga dos Mijikenda ) acreditam que ser rico n\u00e3o est\u00e1 relacionado ao dinheiro e sim \u00e0 quantidade de mulheres e crian\u00e7as que possuem. Meu pai possui quatro mulheres e dezesseis filhos. Felizmente eu sou o filho mais velho da primeira mulher e por isso toda fam\u00edlia deve me respeitar.\u201d me contou o amigo Iha, 20 anos, da tribo Giriama (uma das tribos Mijikenda ). Todos da nova gera\u00e7\u00e3o que conversei s\u00e3o conscientes da necessidade de controle de natalidade e me disseram que pretendem ter apenas 2 ou 3 filhos.<\/p>\n<p>A influ\u00eancia \u00e1rabe \u00e9 muito forte em toda a costa. Em Mombassa as mesquitas s\u00e3o cheias de vida e luz e mais de 70% da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 mu\u00e7ulmana. Por causa das rotas mar\u00edtimas com a \u00cdndia e Europa, ali tamb\u00e9m encontrei hindus e crist\u00e3os.<br \/>\nCONTINENTE IRM\u00c3O<br \/>\nMercado em Mombassa Raphael fa do Brasil Futebol nos fundos do Forte Jesus em Mombassa<\/p>\n<p>Isso aqui o\u00f4 \u00e9 um pouquinho de Brasil iai\u00e1.<\/p>\n<p>O clima tropical traz muitas semelhan\u00e7as.<\/p>\n<p>Aqui estou comendo manga, coco, mam\u00e3o, banana, arroz com feij\u00e3o&#8230; vejo futebol na rua e tamb\u00e9m muita malandragem.<\/p>\n<p>Durante a coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa, v\u00e1rios barcos negreiros partiram daqui para o Brasil. Junto com eles foi tamb\u00e9m muito da cultura africana que \u00e9 hoje uma das bases da cultura brasileira.<\/p>\n<p>A saudade e proximidade do Brasil est\u00e1 ficando cada vez maior!<\/p>\n<p>De Mombasa atravessei a fronteira e agora estou na Tanz\u00e2nia que ficar\u00e1 para o pr\u00f3ximo relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Grande abra\u00e7o,<br \/>\n<strong>Argus<\/strong><\/p>\n<p>Ugali comendo no mercado aberto de Mombassa Vila perto de Mombassa<br \/>\n&#8211; Jambo.<br \/>\n&#8211; Jambo bwana.<br \/>\n&#8211; Habari ngani ?<br \/>\n&#8211; Mzuri sana.<br \/>\n&#8211; Kenya yetu.<br \/>\n&#8211; Hakuna matata&#8230;<br \/>\n&#8211; Wangeni wote mwakaribishwa.<br \/>\n&#8211; Kenya inchi zuri.<br \/>\n&#8211; Hakuna matata.<br \/>\n&#8211; \u00d4u.<br \/>\n&#8211; \u00d4u s\u00f4.<br \/>\n&#8211; B\u00e3o ?<br \/>\n&#8211; B\u00e3o s\u00f4.<br \/>\n&#8211; Eita Qu\u00eania.<br \/>\n&#8211; Problema n\u00e3o&#8230;<br \/>\n&#8211; Todo mundo pode vir.<br \/>\n&#8211; Qu\u00eania \u00e9 bonita demais.<br \/>\n&#8211; Problema n\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Hello.<br \/>\n&#8211; Hello mister.<br \/>\n&#8211; How are you?<br \/>\n&#8211; It\u00b4s ok.<br \/>\n&#8211; My Kenya.<br \/>\n&#8211; No problem&#8230;<br \/>\n&#8211; All visitors are welcome.<br \/>\n&#8211; Kenya is a beautiful country.<br \/>\n&#8211; No problem&#8230;<\/p>\n<p><strong>Para saber mais<\/strong><br \/>\nSite oficial dos Parques Nacionais do Qu\u00eania<br \/>\nwww.kws.org<br \/>\nSites sobre prostitui\u00e7\u00e3o e dicas para conduta dos turistas:<br \/>\nwww.thecode.org<br \/>\nwww.world-tourism.org<br \/>\nwww.ecpat.org ou www.ecpat.com<br \/>\nOutros<br \/>\nhttp:\/\/web.amnesty.org<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Qu\u00eania.NOV.2004 Jambo amigos, Aterrisei na \u00c1frica e recomecei a pedalada em Mombasa no Qu\u00eania. 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