{"id":1231,"date":"2010-02-28T17:04:51","date_gmt":"2010-02-28T20:04:51","guid":{"rendered":"http:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/2010\/02\/nosso-norte\/"},"modified":"2024-03-16T15:57:42","modified_gmt":"2024-03-16T15:57:42","slug":"nosso-norte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/caminhos.arguscaruso.com.br\/?p=1231","title":{"rendered":"Nosso Norte"},"content":{"rendered":"<p>Ol\u00e1s amigos,<\/p>\n<p>O\u00a0 excesso de liberdade pode nos prender num descaminho sem fim. Fazem cinco anos que terminei a volta ao mundo e desde l\u00e1 infinitos projetos surgiram na mente. Uma volta ao mundo abre muitas portas.<\/p>\n<p>Inicialmente, utilizei a porta que j\u00e1 estava aberta h\u00e1 tempos, e voltei a trabalhar com arquitetura e constru\u00e7\u00e3o.\u00a0 Entre uma obra e outra, minha mente ia confabulando diferentes formas de viajar. Formas que utilizassem energia limpa, for\u00e7as da natureza e humana. Pensei\u00a0 em ve\u00edculos h\u00edbrido com motor, pedais e vela, em carro\u00e7as, em caronas, em ir a p\u00e9, etc.\u00a0 Decidi fazer uma mescla de tudo e agora estou com uma bicicleta reclinada carregando uma prancha de surfe que serve de vela.\u00a0 Viajo \u00a0variando entre pedaladas e caronas pelo Nordeste e Norte do Brasil.<\/p>\n<p>Resolvi viajar pelo Brasil porque, nacionalismos e mod\u00e9stias a parte, \u00e9 um pa\u00eds fascinante. Aqui tem um mundo de culturas e diversidades que quero conhecer melhor. No final da volta ao mundo desci de Recife para a Bahia. Agora estou indo de Recife para Bel\u00e9m acompanhando o litoral.<\/p>\n<p>Logo nas primeiras pedaladas fique impressionado com a quantidade de placas de terrenos e casas a venda, ou melhor \u201cfor sale\u201d e com o deplor\u00e1vel turismo sexual. Isso me fez pensar muito antes de come\u00e7ar a escrever sobre nossas maravilhas, incentivando ainda mais um turismo que claramente n\u00e3o est\u00e1 contribuindo para a evolu\u00e7\u00e3o social e ambiental dessa regi\u00e3o. Busquei ent\u00e3o o outro lado disso tudo, ou seja, busquei as comunidades que est\u00e3o se organizando para fazer de suas belezas naturais e sociais uma ferramenta real de desenvolvimento. E elas existem &#8211; ainda de forma muito t\u00edmida mas est\u00e3o atuando e deixando uma luz de esperan\u00e7a no fim do t\u00fanel.<\/p>\n<p>No Cear\u00e1 visitei alguns pontos da\u00a0 Rede Tucum. Tucum \u00e9 o nome de uma fibra natural de palmeira utilizada para trabalhos artesanais, dentre eles, a rede de dormir. J\u00e1 a rede de turismo \u00e9 formada por comunidades que est\u00e3o trabalhando o turismo sustent\u00e1vel onde o turista tem acesso \u00e0 cultura local, com economia solid\u00e1ria e interven\u00e7\u00f5es de baixo impacto ambiental.<\/p>\n<p>Em Prainha do Canto Verde houve um processo de organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria para impedir que os terrenos fossem vendidos para pessoas de fora da comunidade. Essa decis\u00e3o culminou na cria\u00e7\u00e3o da Unidade de Conserva\u00e7\u00e3o RESEX (Reserva Extrativista) onde o turismo comunit\u00e1rio \u00e9 uma das estrat\u00e9gias para a gera\u00e7\u00e3o de renda e uso sustent\u00e1vel do espa\u00e7o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/farm3.static.flickr.com\/2791\/4383651642_5730348183_m.jpg\" alt=\"IMG_0570\" \/><\/p>\n<p>Em Icapu\u00ed exite um outro exemplo de responsabilidade social na Pousada Trememb\u00e9 que \u00e9 gerida pela Associ\u00e7\u00e3o Cai\u00e7ara que reverte parte da receita para realiza\u00e7\u00e3o de seus projetos. Quando cheguei por l\u00e1, estavam reunidos ind\u00edgenas Tapebas de Caucaia para conhecer a rede Tucum do leste.<\/p>\n<p>Em Barrinha tem a sede das Mulheres de Corpo e Alga. Trabalho que usa a mat\u00e9ria local para fazer produtos cosm\u00e9ticos naturais. A sede foi constru\u00edda com terra, um catavento faz a irriga\u00e7\u00e3o da horta lateral e v\u00e1rias outras iniciativas de baixo impacto ambiental foram realizadas para a constru\u00e7\u00e3o da sede.<\/p>\n<p>O que existe em comum entre essas iniciativas \u00e9 a luta para manter suas terras e sua cultura num momento em que, na maioria das praias est\u00e1 ocorrendo a troca dos povos locais, no litoral conhecidos como povos do mar, por grandes empreendimentos brasileiros e extrangeiros.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a fundamental que move toda essa engrenagem \u00e9 o turista, ou melhor, o dinheiro do turista.\u00a0\u00a0 Para n\u00e3o ocorrer como acontece em praticamente todo litoral brasileiro, uma ocupa\u00e7\u00e3o sem planejamento que transforma, em pouco tempo, nossas pequenas e simp\u00e1ticas vilas de pescadores em amontoados de pousadas e restaurantes sem nenhum respeito ao meio ambiente e ao povo local, quando estiver viajando, pense bem onde vai deixar seu dinheiro e tenha consci\u00eancia da import\u00e2ncia dessa atitude.<\/p>\n<p>O que pode ser uma solu\u00e7\u00e3o para esse nosso mundo que parece a cada dia ir mais r\u00e1pido na dire\u00e7\u00e3o errada? Quando estou inseguro do caminho, diminuo a velocidade. Observo mais. Se preciso, paro e volto. O sistema em que submergimos precisa dessa desacelera\u00e7\u00e3o, de uma retribaliza\u00e7\u00e3o evolucion\u00e1ria. Desde a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, entramos numa bola de neve sem fim. Precisamos entender o que foi realmente evolu\u00e7\u00e3o e o que foi experimenta\u00e7\u00e3o que agora, visivelmente vemos que n\u00e3o est\u00e3o funcionando e deve ser descartada.  Voltar \u00e0 economia local, buscar comprar nos pequenos com\u00e9rcios, onde se v\u00ea para onde seu dinheiro est\u00e1 indo. Procurar manter a moeda como um bem de troca e n\u00e3o um bem de ac\u00famulo. Buscar o escambo, o reaproveitamento com feiras de trocas, o artesanato o os bens com materiais locais. Sem abrirmos m\u00e3o das facilidades que todo um sistema global nos oferece para trocas a longa dist\u00e2ncia, principalmente de conhecimento, que coneguimos hoje com nosso desenvolvimento.  Voltar a ter comunidades independentes ambientalmente, capazes de gerar sua pr\u00f3pria \u00e1gua, trat\u00e1-la e reaproveit\u00e1-la, capazes de gerar sua pr\u00f3pria energia e, quando existir excesso de gera\u00e7\u00e3o, conseguir\u00a0 retorn\u00e1-la\u00a0 para a rede comunit\u00e1ria. Plantar seu pr\u00f3prio alimento, construir sua pr\u00f3pria casa, etc. Isso d\u00e1 for\u00e7a para a comunidade enfrentar os v\u00e1rios desafios ambientais, pol\u00edticos e sociais que possam existir.<\/p>\n<p>Seguirei procurando comunidades com exemplos interessantes e ficarei muito grato com dicas nesse meu percurso, principalmente pelo litoral do Cear\u00e1, Piau\u00ed e Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Vou com os ventos Al\u00edsios.<\/p>\n<p>Abra\u00e7o,<\/p>\n<p>Argus<\/p>\n<p>Paracuru CE 28-02-10<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ol\u00e1s amigos, O\u00a0 excesso de liberdade pode nos prender num descaminho sem fim. 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